Salmos 103

ARC · Capítulo 103/150

1Bemdize, ó alma minha ao Senhor, e tudo o que ha em mim, bemdiga o seu sancto nome.

2Bemdize, ó alma minha, ao Senhor, e não te esqueças de nenhum de seus beneficios.

3O que perdôa todas as tuas iniquidades, que sara todas as tuas enfermidades,

4Que redime a tua vida da perdição; que te corôa de benignidade e de misericordia,

5Que farta a tua bocca de bens, de sorte que a tua mocidade se renove como a da aguia.

6O Senhor faz justiça e juizo a todos os opprimidos.

7Fez conhecidos os seus caminhos a Moysés, e os seus feitos aos filhos d'Israel.

8Misericordioso e piedoso é o Senhor; longanimo e grande em benignidade.

9Não reprovará perpetuamente, nem para sempre reterá a sua ira.

10Não nos tratou segundo os nossos peccados, nem nos recompensou segundo as nossas iniquidades.

11Pois assim como o céu está elevado acima da terra, assim é grande a sua misericordia para com os que o temem.

12Assim como está longe o oriente do occidente, assim affasta de nós as nossas transgressões.

13Assim como um pae se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece d'aquelles que o temem.

14Pois elle conhece a nossa estructura, lembra-se de que somos pó.

15Emquanto ao homem, os seus dias são como a herva, como a flor do campo assim floresce.

16Passando por ella o vento, logo se vae, e o seu logar não será mais conhecido.

17Mas a misericordia do Senhor é desde a eternidade e até á eternidade sobre aquelles que o temem, e a sua justiça sobre os filhos dos filhos;

18Sobre aquelles que guardam o seu concerto, e sobre os que se lembram dos seus mandamentos para os cumprirem.

19O Senhor tem estabelecido o seu throno nos céus, e o seu reino domina sobre tudo.

20Bemdizei ao Senhor, todos os seus anjos, vós que excedeis em força, que guardaes os seus mandamentos, obedecendo á voz da sua palavra.

21Bemdizei ao Senhor, todos os seus exercitos, vós, ministros seus, que executaes o seu beneplacito.

22Bemdizei ao Senhor, todas as suas obras, em todos os logares do seu dominio; bemdize, ó alma minha, ao Senhor.

📖 Estudo do capítulo

Resumo

Um dos salmos mais amados de gratidão: Davi convoca sua própria alma a bendizer o Senhor por perdoar pecados, curar enfermidades e ter compaixão como um pai tem por seus filhos, comparando a bondade de Deus à distância entre o oriente e o ocidente.

Explicação

Este salmo é uma celebração completa do caráter misericordioso de Deus, citando quase literalmente a autorrevelação divina a Moisés em Êxodo 34:6-7 ('misericordioso e piedoso... longânimo e grande em benignidade'). A imagem de que Deus afasta nossas transgressões 'como o oriente está longe do ocidente' (v.12) é poderosa porque, ao contrário do norte e do sul (que têm um ponto final, os polos), o leste e o oeste nunca se encontram — uma forma poética de descrever um perdão sem limites. A aplicação hoje é permitir que a lembrança da bondade de Deus renove ativamente a gratidão, especialmente em dias difíceis.

Curiosidades

  • A comparação 'como o oriente está longe do ocidente' (v.12) é matematicamente diferente de 'norte e sul': leste e oeste são direções que nunca se encontram em uma esfera, enquanto norte e sul têm pontos fixos (os polos) — um detalhe que torna a imagem do perdão ainda mais rica.
  • Este salmo é um dos mais usados em funerais e celebrações judaicas e cristãs ao redor do mundo por sua mensagem consoladora sobre a bondade de Deus.

Explicação versículo a versículo

  1. Salmos 103:1'Tudo o que há em mim' amplia o louvor para além da boca: convoca cada parte do ser, pensamentos, sentimentos, memória, para participar junto de bendizer a Deus.
  2. Salmos 103:2O aviso de 'não esquecer nenhum dos benefícios' prepara a lista que vem a seguir no salmo: um lembrete de que é fácil deixar a gratidão de lado se a memória não for exercitada de propósito.
  3. Salmos 103:3Perdão e cura aparecem lado a lado, como duas partes do mesmo cuidado: um trata da culpa por dentro, o outro do corpo que sofre, mas os dois vêm da mesma fonte.
  4. Salmos 103:4Ser 'coroado' de benignidade é uma imagem real de honra, usada aqui para algo bem íntimo: a vida resgatada da perdição ganha o mesmo tipo de dignidade que se daria a um rei.
  5. Salmos 103:5A comparação com a da águia vem da crença antiga de que essa ave trocava as penas e parecia renascer com vigor. A imagem serve para dizer que Deus devolve fôlego a quem estava gasto, não que a pessoa vire uma ave de verdade.
  6. Salmos 103:6Depois de falar dos benefícios pessoais, o salmo abre o foco: Deus também faz justiça para todo oprimido, não só para quem está escrevendo o poema.
  7. Salmos 103:7Há uma diferença sutil aqui: o povo viu os atos poderosos de Deus, mas foi Moisés quem chegou a conhecer os seus caminhos, um acesso mais próximo ao porquê por trás das ações.
  8. Salmos 103:8Essa lista de qualidades - misericordioso, piedoso, paciente, cheio de bondade - repete quase palavra por palavra uma fórmula antiga usada em outros textos para descrever o caráter de Deus.
  9. Salmos 103:9A promessa é que a ira de Deus tem limite: ele não fica reclamando para sempre nem guarda rancor eterno, ao contrário do que às vezes parece durante o castigo.
  10. Salmos 103:10O ponto central do salmo aparece aqui: Deus não faz conta exata entre pecado e castigo. O tratamento que se recebe é mais generoso do que a régua da justiça estrita permitiria.
  11. Salmos 103:11Comparar a misericórdia de Deus à altura do céu acima da terra é a versão vertical da mesma ideia que o verso seguinte vai repetir na horizontal, com leste e oeste: uma distância imensa demais para medir.
  12. Salmos 103:12Leste e oeste nunca se encontram, por mais que se ande - diferente de norte e sul, que têm um ponto final nos polos. Por isso essa distância descreve um perdão que afasta o pecado para um lugar de onde não há volta.
  13. Salmos 103:13A comparação com um pai que tem compaixão dos filhos troca a régua da justiça pela ternura de uma relação de família, mais próxima e mais afetuosa do que qualquer cálculo.
  14. Salmos 103:14'Somos pó' retoma a cena da criação, quando o ser humano foi formado do barro da terra. Lembrar disso é o motivo dado aqui para a paciência de Deus: ele lida com uma criatura frágil e passageira, e leva isso em conta.
  15. Salmos 103:15Comparar os dias do ser humano à erva e à flor do campo é dizer que a vida floresce rápido e some rápido, a mesma imagem usada em vários outros textos antigos para lembrar da nossa curta duração.
  16. Salmos 103:16Basta o vento passar para a erva sumir sem deixar rastro nem lugar reconhecível. É o fim natural de uma vida breve, continuando a imagem do verso anterior.
  17. Salmos 103:17Contra a brevidade da vida humana descrita nos versos anteriores, entra o contraste: a misericórdia de Deus atravessa gerações inteiras, de pai para filho, sem o mesmo prazo de validade.
  18. Salmos 103:18A permanência da misericórdia não é solta no ar: o salmo liga ela a quem guarda a aliança e se lembra dos mandamentos para realmente colocá-los em prática, não só de boca.
  19. Salmos 103:19O salmo muda de escala outra vez: depois de falar da vida curta de cada pessoa, lembra que o trono de Deus está fixado nos céus e seu governo alcança literalmente tudo.
  20. Salmos 103:20Convocar os anjos para bendizer a Deus amplia o coro de louvor para além dos seres humanos: mensageiros poderosos que cumprem ordens são chamados a participar também.
  21. Salmos 103:21'Exércitos' e 'ministros' descrevem as hostes celestiais como uma corte a serviço de Deus, cumprindo sua vontade. Mais uma camada do mesmo convite: que tudo que existe participe do louvor.
  22. Salmos 103:22O salmo termina abrindo o convite para 'todas as suas obras em todos os lugares', antes de voltar, na última frase, à mesma ordem pessoal que abriu o poema: bendizer a Deus, ó alma minha.

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