A Moda Deste Mundo · Capítulo 9
Já não sois deste mundo
Imagine um homem que vive a vida inteira numa cidade que não é a sua. Aprendeu o idioma, conhece as ruas, cumprimenta os vizinhos pelo nome, paga os impostos, trabalha lado a lado com a gente do lugar. Por fora, ninguém diria que ele veio de longe. Mas há nele um sotaque que nunca se apaga de todo, uma maneira de olhar as coisas que denuncia outra origem. Quando todos correm para uma festa que ele não entende, ele fica. Quando todos se entristecem com uma perda que para ele não pesa, ele guarda silêncio. Não por desprezo — ele ama aquela cidade, vive nela de corpo inteiro. Mas o seu coração foi formado em outro chão. Ele é, ao mesmo tempo, de dentro e de fora. Habitante e estrangeiro. E essa dupla condição é, talvez, a coisa mais difícil de carregar no mundo: pertencer e não pertencer ao mesmo tempo.
É exatamente assim que Jesus descreve os seus discípulos na noite mais íntima de toda a sua vida. Faltavam poucas horas para a cruz. Reunido com os onze no cenáculo, depois de lhes ter lavado os pés e partido o pão, Ele lhes abre o coração numa longa conversa que João nos guardou. E ali, entre palavras de consolo e de aviso, Ele toca numa ferida que todo seguidor seu mais cedo ou mais tarde conhecerá. "Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, me aborreceu a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos aborrece" (João 15:18-19). Não foi uma frase dura dita num momento de irritação. Foi um diagnóstico tranquilo, quase terno, de quem prepara os que ama para uma verdade que dói.
E, pouco depois, Ele se volta do discurso para a oração. Levanta os olhos ao céu e fala com o Pai a respeito daqueles homens — e, por extensão, a respeito de nós. É preciso sentir o peso da hora. Não é um sermão para multidões nem uma lição de escola; é um pai que, à beira de partir, intercede pelos filhos que ficarão. Tudo o que Jesus mais desejava dizer antes de morrer está condensado nessas palavras dirigidas ao Pai diante dos discípulos que escutavam. E o que Ele pede é surpreendente. "Eu lhes dei a tua palavra, e o mundo os aborreceu, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu não sou do mundo" (João 17:14-16). Repare bem no que Ele não pede. Não pede que os tire. Não pede uma redoma, um muro, uma ilha onde os seus pudessem viver protegidos do contato com o século. Pede, em vez disso, que sejam guardados dentro dele. A diferença é toda a diferença do mundo.
E há, nessa oração, uma medida que deveria nos tirar o fôlego: "não são do mundo, como eu não sou do mundo". A régua da nossa estranheza é a estranheza do próprio Cristo. Ele não nos pede para sermos um pouco diferentes, marginalmente destoantes, suavemente fora do tom. Ele toma a sua própria condição — a de quem veio de cima e a este mundo não pertencia em nada — e a estende sobre os seus como um manto. Da mesma origem, da mesma natureza, do mesmo desencontro com o século. O discípulo é estrangeiro porque o seu Senhor foi estrangeiro primeiro; e a hostilidade que ele encontra é o eco da hostilidade que primeiro recaiu sobre Aquele que o chamou. Isso, longe de assustar, consola. Pois significa que nenhum aborrecimento do mundo nos alcança antes de já ter alcançado o coração de Cristo — e Ele atravessou todos, até o último, e venceu.
Há, no coração de cada um de nós, uma fome profunda e legítima de pertencer. Fomos feitos para a comunhão, não para o isolamento; e por isso o desejo de ser aceito, incluído, reconhecido como dos nossos é uma das forças mais poderosas que movem a alma humana. Não é um defeito essa fome — é o sinal de que fomos criados para o amor, para a família, para a casa. O problema nunca está em querer pertencer; está em pertencer ao que não nos pode sustentar. A moda deste mundo conhece essa fome melhor do que nós mesmos — e a explora com mão de mestre. O século é, antes de tudo, um grande mecanismo de pertencimento. Ele oferece um figurino, e quem o veste recebe em troca o calor da aprovação, a sensação morna de estar do lado certo, dentro do grupo, ao abrigo do olhar da maioria. Vista o que todos vestem, deseje o que todos desejam, ria do que todos riem, despreze o que todos desprezam — e você nunca caminhará sozinho. Esse é o contrato silencioso da era. E o preço, que parece tão pequeno na hora de assinar, é simplesmente este: a sua identidade.
É um preço que pagamos quase sempre sem perceber, em prestações tão pequenas que nenhuma delas, isolada, parece um sacrifício. Uma opinião que se cala para não destoar. Um gosto que se finge para caber. Uma indignação que se exibe porque é a indignação da moda, e um silêncio que se guarda diante do que de fato deveria nos indignar. Aos poucos, sem decisão consciente, vamos terceirizando ao século a tarefa de nos dizer quem somos. E quando enfim olhamos para dentro à procura de um rosto que seja nosso, encontramos apenas o reflexo do que os outros esperavam de nós. O mundo prometeu pertencimento e cobrou a alma; deu o calor do grupo e levou o calor próprio; entregou um lugar na multidão e, em troca, dissolveu a pessoa que ali deveria estar. Foi para nos resgatar dessa troca ruinosa que Cristo veio — e é dela que Ele nos chama para fora.
Porque pertencer ao mundo, no sentido em que Jesus fala, não é morar nele. É ter nele a sua origem, a sua medida, o seu juiz. É deixar que o século decida quem você é, o que vale a sua vida, o que deve fazer o seu coração bater mais forte. O mundo ama o que é seu — e é por isso que afaga quem se conforma. Não há heroísmo em ser amado pelo mundo quando se veste o seu figurino; há apenas o reconhecimento natural de um igual por outro igual. A água acolhe a água. A corrente carrega de bom grado quem flutua na sua direção. O aplauso do século não é, na maioria das vezes, recompensa pela virtude — é o abraço que uma família dá a quem lhe pertence. E é justamente por isso que Jesus inverte tudo com uma palavra que deveria nos fazer parar e respirar fundo: "eu vos escolhi do mundo".
Detenha-se nessa preposição pequena e imensa. Não escolhidos no mundo, como quem é selecionado dentre os melhores de uma multidão para receber um prêmio. Escolhidos do mundo — arrancados, separados, tirados de uma corrente para serem postos em outra. Há aqui um arrancar que precede tudo. Antes que houvesse qualquer mérito nosso, antes que tivéssemos feito qualquer coisa, uma mão nos alcançou no meio do figurino e nos disse: você não é daqui. Não nasceu para ser massa moldada pela fôrma do século. A sua origem é outra, o seu destino é outro, o seu nome verdadeiro foi escrito num lugar que o mundo não conhece. E é essa eleição — esse ter sido escolhido para fora — que explica, de uma vez, tanto a estranheza que o discípulo sente quanto a estranheza que ele provoca.
Vale a pena demorar um instante na palavra que João usa para "mundo". No original grego, ela é kosmos — e não significa primeiro o planeta, a terra com os seus rios e montanhas, nem as pessoas que nele habitam, a quem Deus tanto amou que deu o seu Filho. Kosmos quer dizer, antes de tudo, ordem, arranjo, sistema; é a mesma raiz de onde vem a nossa palavra "cosmético", aquilo que ordena e enfeita a aparência. Quando Jesus diz que os seus não são do mundo, não está dizendo que devem desprezar a criação ou fugir dos homens. Está falando dessa ordem invisível, desse arranjo de valores que organiza a vida do século à revelia de Deus — o mesmo esquema que Paulo chamou de molde e nos mandou recusar. Não somos do kosmos no exato sentido em que não pertencemos ao seu sistema, não nos curvamos à sua ordenação, não aceitamos a sua maneira de arrumar o que importa e o que não importa. E, no entanto, continuamos a viver dentro dele, sobre a mesma terra, entre os mesmos homens, amando-os como Deus os amou. A distinção é fina, mas tudo depende dela: o discípulo rompe com o esquema sem romper com as pessoas; recusa a ordem sem desprezar o lugar.
Porque a verdade que muita gente prefere não ouvir é esta: quem não veste o figurino incomoda. E incomoda mesmo sem dizer uma palavra. A pessoa que recusa a corrida do acúmulo torna suspeita a corrida dos que correm. A que não ri da piada cruel deixa, com o seu silêncio, um juízo no ar que ninguém pediu. A que vive como se houvesse algo mais sólido do que o sucesso visível faz tremer, sem querer, a fé alheia naquilo que todos construíram. O mundo não aborrece o discípulo principalmente pelo que ele diz; aborrece-o pelo que ele é. A sua simples existência é uma pergunta inconveniente sobre a normalidade do século. E é importante entender que esse aborrecimento de que Jesus fala não é necessariamente o ódio violento dos grandes embates. Quase sempre ele veste roupas mais discretas — o esfriamento de uma amizade, o convite que deixa de chegar, o rótulo de "estranho", o "você mudou" dito num tom que não é elogio. São pequenas exclusões, mas todas dizem a mesma coisa: você deixou de ser dos nossos.
Diante disso, há sempre duas tentações, e ambas são fugas disfarçadas. A primeira é a tentação da fuga para fora: a de tirar a si mesmo do mundo. Construir um mundinho à parte, cercado de muros altos, onde só entrem os iguais e nunca chegue o ar do século. É a fuga monástica do coração — não a vocação santa de alguns para o recolhimento e a oração, mas o impulso medroso de quem confunde santidade com ausência, pureza com distância. E é precisamente isso que Jesus recusa pedir ao Pai. "Não peço que os tires do mundo." Pois um discípulo escondido do mundo é uma lâmpada debaixo do alqueire, é sal trancado no saleiro, é uma cidade construída no fundo do vale para que ninguém a veja. A luz que se isola não ilumina nada além de si mesma. E o sal que não toca a carne não impede corrupção alguma.
A segunda tentação é a oposta, e talvez mais sutil, porque se disfarça de amor: a fuga para dentro. A de se dissolver no mundo até desaparecer nele. Em nome de "ser relevante", de "falar a língua do tempo", de "não ser estranho", o discípulo vai amaciando os contornos da sua identidade, cedendo num ponto e noutro, ajustando o sotaque até que ninguém mais perceba que ele veio de longe — e um dia descobre que já não veio de lugar nenhum. Tornou-se indistinguível. Mistura-se à corrente com tanta perfeição que o mundo, enfim, o ama de novo — e o ama porque já não tem motivo para aborrecê-lo. O sal perdeu o sabor. E sal que perdeu o sabor, disse o Mestre, para nada mais presta. Entre a redoma e a dissolução, entre o mosteiro do medo e o camaleão da covardia, está o caminho estreito que Jesus pede: guardados no meio, vivos dentro, sem deixar de ser quem são.
Como, então, se vive nesse fio? A resposta de Jesus não está no isolamento nem na adaptação, mas numa terceira coisa, que Ele nomeia na mesma oração: "Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade" (João 17:17). Santificar é uma palavra que assustou muita gente, mas o seu sentido raiz é simples e belo: significa separar, apartar para um uso especial. Um vaso santificado não é um vaso melhor que os outros; é um vaso reservado para um fim que os outros não têm. E o que santifica o discípulo, o que o mantém distinto sem precisar fugir, não é a força da sua vontade nem o rigor das suas regras. É a verdade. É a palavra de Cristo descendo na alma, formando ali um critério que o século não consegue dar. O estrangeiro continua estrangeiro não porque se tranca em casa, mas porque carrega dentro de si o idioma da pátria. A santificação na verdade é esse idioma. É o que permite andar pelas ruas da cidade do mundo sem nunca esquecer de onde se veio.
Isto custa, e seria desonesto fingir que não. Custa o conforto morno da aprovação. Custa a tranquilidade de quem nunca destoa. Custa, às vezes, amizades que só existiam enquanto havia conformidade, e que se desfazem no instante em que o figurino é recusado. Há uma solidão real na vida do estrangeiro, e Jesus não a esconde dos seus — Ele próprio a viveu até o fim, abandonado pelos que amava na hora em que mais precisou. Mas — e aqui está o segredo que transforma o peso em asas — essa estranheza não é uma maldição que se carrega; é a marca de uma pertença mais alta. O discípulo não é amado pelo mundo porque é amado por Outro. Não pertence ao século porque pertence ao Reino. A exclusão que o fere por um lado é, pelo outro lado, a prova de um abraço que não falha. "Porque não sois do mundo" — disse Jesus — e na boca dele aquilo não era condenação, era certidão de família.
Veja, então, como essa verdade desce até o miúdo dos seus dias. Não se trata de procurar conflito, de cultivar a esquisitice por gosto, de fazer da diferença um troféu. O estrangeiro do Reino não anda pela cidade de cara fechada, julgando os habitantes; ele os ama, serve-os, chora com eles, alegra-se com eles, partilha o pão e a estrada. Mas há um ponto em que ele não se dobra, e esse ponto é a sua identidade. Quando o século oferecer o seu pertencimento ao preço da sua alma — e ele oferece, todos os dias, em mil transações pequenas que mal percebemos — ali o discípulo recua um passo e lembra quem é. No grupo onde rir junto custaria a verdade, ele cala. Na conversa onde aparentar custaria a honestidade, ele se mostra inteiro. No silêncio onde concordar custaria a fé, ele permanece firme com mansidão. Não com a arrogância de quem se julga superior, mas com a serenidade quieta de quem já tem casa noutro lugar e por isso não precisa mendigar abrigo neste.
E é bom que sejamos concretos, porque a estranheza do Reino raramente se decide em grandes palcos. Decide-se na pequena praça pública onde hoje a maioria expõe a vida — na vitrine permanente em que se mede o valor de um ser humano pelo número de olhos que o aprovam. Ali, o estrangeiro do Reino aprende a viver sem precisar do veredito da multidão: posta ou não posta, é amado do mesmo jeito; aplaudido ou ignorado, o seu rosto continua o mesmo. Decide-se na mesa do trabalho, quando todos riem da pessoa ausente e o silêncio de um basta para que a piada caia no chão. Decide-se na hora de gastar, quando a era inteira grita que ter mais é ser mais, e alguém escolhe a sobriedade não por avareza, mas por liberdade. Decide-se na maneira de tratar quem nada pode retribuir, num século que só investe afeto onde há retorno. São gestos miúdos, quase invisíveis. Mas é deles que se faz o tecido de uma vida que destoa — não por estardalhaço, e sim por coerência tranquila, dia após dia, longe dos holofotes.
E talvez seja esta a renovação do entendimento de que todo este livro vem falando, aplicada aqui ao mais fundo de nós: deixar de medir o próprio valor pela aceitação do século. Enquanto a aprovação do mundo for o espelho onde buscamos o nosso rosto, seremos sempre escravos da moda da época, mudando de forma a cada estação, ansiosos por caber, aterrorizados por sobrar. A mente renovada inverte a equação. Ela aprende a ouvir, por baixo do barulho de todas as aprovações e desaprovações humanas, uma só voz que basta — a voz que escolheu, que chamou pelo nome, que disse "tu és meu". E quem ouve essa voz pode atravessar o aborrecimento do mundo sem se quebrar, porque a sua identidade já não está em jogo. Ela foi posta a salvo, fora do alcance da corrente, no lugar onde a aparência deste mundo não chega a passar.
Por isso, no fim, ser estrangeiro não é um exílio amargo. Essa é a grande inversão. O mundo olha para quem não veste o seu figurino e enxerga um deserdado, um excluído, um pobre coitado que ficou de fora da festa. Mas o que parece exclusão é, na verdade, cidadania. O discípulo não foi expulso do mundo — foi naturalizado num Reino. Não perdeu uma pátria — descobriu a verdadeira, da qual a outra era apenas a cidade de passagem. O sotaque que o denuncia é o sotaque do céu. A estranheza que ele sente é apenas a saudade de uma casa que existe de fato. E o ódio do mundo, quando vem, não é o sinal de que ele errou o caminho; é, muitas vezes, o sinal mais seguro de que está nele. Andamos, então, pelas ruas do século como aquele homem da cidade que não é a sua — amando o lugar, servindo o lugar, mas com o coração formado em outro chão, esperando, sem amargura e sem pressa, o dia de chegar enfim em casa. No mundo, sem ser do mundo. Estrangeiros, sim. Mas estrangeiros que sabem para onde vão.