A Moda Deste Mundo · Capítulo 1

O deus deste século

Havia um homem que nascera sem nunca ter visto o sol. Não conhecia o azul do céu, nem o verde das oliveiras, nem o rosto da própria mãe. Sentava-se à beira do caminho, perto do templo, e mendigava. Os que passavam por ele talvez nem o vissem — apenas mais um vulto na paisagem, mais um corpo dobrado no chão. E o mais estranho de toda a sua história não é que ele fosse cego. É que, por anos a fio, ele não soube o que estava perdendo. Não se pode ter saudade de uma luz que nunca se viu. A cegueira mais profunda é aquela que se acostumou consigo mesma, que parou de chorar pela visão, que aprendeu a viver no escuro chamando-o de dia.

Esse homem é a imagem que abre este livro. Porque há uma cegueira que não é dos olhos, e dela quase ninguém escapa sem socorro. O apóstolo Paulo, escrevendo aos coríntios, fez uma afirmação que deveria nos tirar o sono: "Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus" (2 Coríntios 4:4). Pare um instante nessa frase. Existe um "deus deste século". Existe um poder que cega. E o que ele esconde não é uma informação qualquer — é a glória de Cristo, a própria luz.

Era preciso começar por aqui. Antes de falarmos da moda do mundo, dos seus apetites e dos seus tronos, é preciso acender uma luz sobre quem dirige o desfile. Porque a moda deste século não se impõe pela força bruta; ela se impõe pela aparência de obviedade. Ela não grita; ela sussurra que assim é a vida, que assim sempre foi, que quem pensa diferente é que está atrasado. E quem governa por sussurros precisa, antes de tudo, que ninguém o veja. O primeiro trabalho do deus deste século é apagar a luz na sala em que ele reina.

A palavra que Paulo usa para "século" é, no original grego, aiōn. Não é apenas o tempo que o relógio mede; é a era, o espírito de uma época, o ar moral que se respira sem perceber. O aiōn é o clima do mundo, o conjunto de pressuposições que ninguém precisa provar porque todos já aceitaram. É a corrente em que se nada sem saber que se está nadando. E sobre esse aiōn paira um governante. A Escritura ousa chamá-lo de "deus" — não porque ele seja divino, mas porque ele recebe o que só a Deus pertence: a confiança, a obediência, o coração. Quem dita o que é normal acaba ocupando o lugar de Deus na mente das pessoas, ainda que nunca peça para ser adorado em voz alta.

E é importante notar onde Paulo localiza o estrago. Ele não diz que o deus deste século cegou os olhos dos incrédulos — diz que cegou os "entendimentos", a mente, o lugar onde o homem decide o que é real e o que vale a pena. A guerra não é, primeiro, sobre os atos; é sobre a percepção que vem antes dos atos. Antes de o século nos fazer correr atrás de uma coisa, ele nos faz enxergar essa coisa como brilhante. Antes de nos fazer desprezar outra, ele a pinta de cinza. O governante invisível não precisa puxar os nossos braços; basta que ele acerte os nossos olhos, e os braços o seguirão sozinhos, achando que escolheram. É por isso que toda a moda deste mundo começa muito antes da vitrine: começa no modo como aprendemos a olhar para a vitrine.

Repare na inteligência sombria dessa cegueira. Ela não convence ninguém de que a luz não existe; isso seria fácil de refutar. Ela faz algo mais sutil: convence as pessoas de que já estão na luz. Vende escuridão como progresso. Embrulha a noite em palavras luminosas — liberdade, sucesso, realização, autenticidade — e entrega ao homem cego um espelho onde ele se vê resplandecente. O século não diz "venha para as trevas". Ele diz "veja como você já chegou", enquanto a verdadeira luz, a glória de Cristo, fica do lado de fora da janela, batendo num vidro que o coração aprendeu a achar transparente.

É isso que torna a moda deste mundo tão difícil de enxergar de dentro. Ninguém percebe a própria época como época. O peixe é a última criatura a descobrir a água. Nós chamamos de "realismo" o que é apenas o figurino da nossa geração; chamamos de "bom senso" o que é apenas o sussurro do aiōn repetido tantas vezes que virou instinto. A vitrine acesa a noite inteira, o murmúrio que nunca cessa nas telas que carregamos, a pressa de ter mais e ser mais, o medo surdo de ficar para trás — tudo isso nos parece tão natural quanto o ar. E é exatamente aí que mora o poder. O que parece natural não é questionado. O que não é questionado, governa.

Observe como esse governo se disfarça. Toda tirania visível gera resistência; por isso a mais eficiente é a que não aparece como tirania, mas como liberdade. O deus deste século raramente proíbe; ele oferece. Ele não acorrenta o homem a uma parede — entrega-lhe mil portas e o convence de que atravessá-las é ser livre, sem nunca lhe dizer que todas dão no mesmo corredor escuro. O escravo que se julga senhor não tenta fugir. E essa é a astúcia do molde: ele não nos veste à força, ele nos faz desejar o figurino, achar bonito o que nos aperta, chamar de identidade o que é apenas uniforme. Quando o cativeiro se confunde com a vontade própria, ninguém sonha em escapar.

Há ainda um detalhe que precisa ser dito sem rodeios, porque é fácil errar aqui. O deus deste século não cega só o ímpio escancarado, o que blasfema de punhos cerrados. Ele cega também — e talvez de preferência — o homem religioso, decente, ocupado, que reza suas orações e cumpre seus deveres e, no entanto, olha para o mundo com exatamente os mesmos olhos que todos. Dá para ter o nome de cristão e a visão do século; dá para frequentar a casa da luz com a retina ainda formatada pelas trevas. A cegueira deste capítulo não é um problema só dos "de fora". É um diagnóstico que cada um de nós precisa receber sobre si, antes de qualquer outra coisa.

Mas é preciso dizer com clareza, para que ninguém saia desta página com medo no lugar errado: a Escritura não pinta um universo de dois deuses em guerra equilibrada. O "deus deste século" é um usurpador, não um senhor legítimo. Seu poder é real, mas é poder de cegueira, não de criação. Ele não pode acender uma única estrela; só pode apagar a vela na mente de quem o escuta. Toda a sua força consiste em manter as pessoas no escuro e convencê-las de que o escuro é tudo o que existe. É um reino inteiro construído sobre uma só mentira: a de que não há outra luz.

E todo o resto deste livro será, no fundo, o desdobramento dessa única mentira em mil formas. Cada coisa que o século celebra como glória é uma vela acesa para que os olhos não procurem o sol. Diz-se que a vida é acumular, e a alma esquece de Quem provê. Diz-se que valer é mandar e aparecer, e o coração troca o servir pelo subir. Diz-se que o mais sábio é o mais esperto, e a cruz se torna escândalo aos olhos treinados pela época. Diz-se, acima de tudo, que a primeira lei é salvar a si mesmo, e o homem abraça com força a vida que estava chamado a entregar. São muitas as glórias do aiōn, mas o truque é sempre o mesmo: brilhar o bastante para que ninguém se lembre de olhar mais alto. Acender a luz sobre quem segura essas velas é o trabalho deste capítulo de abertura; apagar uma a uma, à luz das palavras de Jesus, será o trabalho dos que vêm depois.

E então entra Jesus. Numa cidade onde os mestres discutiam e as multidões se acotovelavam, Ele disse de Si mesmo a frase mais ousada que um homem já pronunciou: "Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida" (João 8:12). Não disse que trazia uma luz, entre outras. Disse que era a Luz. E não a luz de um povo, de uma cidade ou de uma religião — a luz do mundo, do mesmo kosmos que o deus deste século havia tomado por sua sala escura. Foi um anúncio de guerra. Onde reinava a cegueira, alguém acendeu o sol e chamou todos para fora.

A diferença entre os dois é a diferença entre apagar e iluminar. O deus deste século cega "para que não resplandeça a luz"; o objetivo dele é o escuro. Cristo veio "para que vejam"; o objetivo dEle é o sol nascendo dentro do homem. Um esconde a glória de Deus atrás de mil glórias falsas; o Outro é a glória de Deus em rosto humano. Por isso o evangelho não começa com uma lista de coisas a fazer. Começa com um acordar, um abrir de olhos, um "haja luz" repetido no escuro de cada coração. A salvação, antes de ser comportamento, é visão.

Note também o que esse título dispensa. Jesus não diz "eu trago um pouco de luz para os seus dias difíceis", como quem oferece um consolo entre outros. Ele se coloca diante do mundo inteiro e diz: a fonte sou Eu. É uma afirmação que ou é absurda ou é tudo. Se um homem qualquer dissesse isso, fugiríamos dele; e os mestres daquela cidade entenderam bem o tamanho da pretensão — por isso pegaram em pedras. Mas a frase ficou de pé porque o que a sustenta não é arrogância humana e sim o peso de quem é "a imagem de Deus", como Paulo escreveu aos mesmos coríntios. Diante de uma afirmação dessas não cabe meio-termo: ou continuamos no escuro chamando-O de exagerado, ou nos viramos para a luz e descobrimos que ela aquece.

E aqui a Escritura nos dá uma parábola viva, não contada, mas acontecida. Logo depois de dizer que era a luz do mundo, Jesus encontra o homem cego de nascença. Os discípulos, presos ao figurino religioso da época, querem saber de quem é a culpa: "Quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?" (João 9:2). O século sempre quer um culpado; é mais fácil explicar a escuridão do que vencê-la. Jesus recusa a pergunta e faz outra coisa: cospe na terra, faz lodo, unge os olhos do homem e o manda lavar-se. E o homem, que nunca vira nada, volta vendo. A primeira coisa que seus olhos contemplaram neste mundo foi a luz — e por trás dela, embora ele ainda não soubesse o nome, o rosto de Cristo.

Não percam o que vem depois, porque é o coração de tudo. Os que mais se incomodaram com o milagre não foram os cegos — foram os que se julgavam de olhos abertos. Os doutores interrogam o homem, ameaçam, expulsam, tentam desfazer o que a luz fizera. E Jesus, ao fim, pronuncia a sentença que vira o mundo do avesso: "Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos" (João 9:39). Eis a denúncia perfeita do deus deste século: sua obra-prima não é o cego que sabe que é cego — esse ainda pode ser curado. Sua obra-prima é o homem convencido de que enxerga. Esse fechou a porta por dentro.

O que o século teme, então, não é a sua descrença; é a sua visão. Ele suporta muito bem o homem que duvida de tudo, que zomba de tudo, que se acha esperto demais para acreditar em qualquer coisa — esse ainda mora na sala escura, só que rindo. O que o aiōn não suporta é o homem que de repente vê: que olha para a vitrine acesa e percebe o vazio por trás do brilho, que olha para a corrida sem fim e pergunta para onde ela leva, que olha para a própria vida e descobre, com espanto e alegria, que existe um sol do lado de fora. Esse homem é perigoso para a moda do mundo. Porque um cego curado é uma testemunha viva de que a escuridão não era o fim da história.

Custa enxergar. Seria desonesto prometer que abrir os olhos é confortável. Quem passa a ver descobre, primeiro, que andou anos esbarrando nas paredes; descobre que muito do que chamava de tesouro era cenário pintado; descobre que estava nu onde se julgava vestido. A luz, antes de aquecer, expõe. E o século não vai aplaudir quem acorda — vai chamá-lo de ingênuo, de atrasado, de fanático, exatamente como os doutores chamaram o cego curado de pecador. Há um preço em deixar de ver o mundo do jeito que o mundo manda ver. Mas é o preço de um homem que troca um espelho por uma janela: perde a própria imagem inflada e ganha o horizonte inteiro.

E há uma solidão nesse primeiro tempo, é honesto admitir. O cego de nascença, depois de curado, foi interrogado, desacreditado e por fim posto para fora — expulso da única comunidade que conhecera. A luz lhe custou o lugar à mesa dos que enxergavam errado. Quem começa a ver o esquema do século por dentro às vezes se sente assim: estranho na própria roda, fora de sintonia com conversas que antes o embalavam, incapaz de se entusiasmar com o que já não lhe parece ouro. Mas repare no fecho daquela história, porque ele é a promessa escondida no custo: quando o homem foi expulso, "ouvindo Jesus que o tinham expulsado, e achando-o, disse-lhe: Crês tu no Filho de Deus?" (João 9:35). O Cristo foi atrás dele. Quem perde a velha mesa por causa da luz encontra Aquele que é a própria luz vindo ao seu encontro. Não se fica órfão de visão; troca-se uma roda cega por uma comunhão que vê.

Porque do outro lado do custo está a liberdade — e que liberdade. O cego de nascença não recebeu um argumento; recebeu o dia. Não lhe explicaram a cor; mostraram-lhe o céu. Assim é com quem o Cristo cura por dentro: não se trata de trocar uma opinião por outra, mas de ganhar olhos. E quem ganha olhos não pode mais ser governado por sussurros no escuro, porque agora vê quem está sussurrando. A obediência ao deus deste século dependia inteiramente de não vê-lo. Acesa a luz, o feitiço se quebra. Não que as vitrines apaguem nem que as correntes parem de correr — mas elas perdem o disfarce de obviedade, e o que perde a obviedade perde o trono.

Como isso desce ao chão da sua vida hoje? Comece por uma oração desarmada e honesta, a oração que nenhum homem do século sabe fazer porque ela confessa cegueira: "Senhor, abre os meus olhos." É um pedido humilhante e, por isso mesmo, libertador, porque admite que talvez aquilo que você sempre achou óbvio fosse apenas o figurino da sua época vestido por dentro. Depois, comece a desconfiar das obviedades. Quando algo lhe parecer "natural demais" — a pressa que ninguém questiona, a inveja que todos justificam, a fome de aparecer que se chama de ambição saudável — pergunte de onde vem essa luz. É o sol, ou é o brilho da vitrine? É a glória de Cristo, ou é uma das mil glórias que o século acende para esconder a única que importa?

Faça também uma pergunta simples e desarmante diante das coisas que você mais deseja: quem me ensinou a querer isto? Boa parte do que perseguimos com tanto ardor não nasceu dentro de nós; foi plantado de fora, repetido até parecer voz própria. O século é mestre em transformar suas modas em vontades nossas, de modo que defendemos como liberdade pessoal aquilo que apenas obedecemos sem perceber. Olhar para trás de um desejo e descobrir de quem é a mão que o acendeu já é meio caminho andado para sair do escuro. Não para desprezar tudo o que se quer — mas para escolher, finalmente, com olhos abertos, em vez de ser escolhido pelo que se vê.

E não faça disso uma vigilância ansiosa, um esquadrinhar amargo de tudo o que existe, como quem agora tem medo da própria sombra. A luz não nos torna desconfiados de todas as coisas; torna-nos capazes de ver cada coisa no seu tamanho real. O homem que enxerga não odeia o mundo — ele o vê com clareza, agradece o que nele é dádiva do Criador e recusa o que nele é o sussurro do usurpador. Ver direito é, antes de tudo, um descanso: a paz de quem parou de tropeçar no escuro e finalmente sabe onde pisa.

Não espere fazer isso sozinho, e essa é a melhor notícia do capítulo. Você não precisa fabricar a própria visão a poder de esforço; o mesmo Senhor que fez lodo e ungiu os olhos do cego é quem abre os seus. O nosso trabalho não é gerar a luz — é parar de fingir que já a temos. É deixar de defender a sala escura. É baixar a guarda diante daquele que disse "Eu sou a luz do mundo" e descobrir que a frase não era arrogância de homem: era oferta de Deus. A renovação do entendimento, da qual este livro inteiro vai falar, não começa numa decisão de mudar de comportamento. Começa num par de olhos que se abre e, pela primeira vez, vê as coisas como elas são.

E é por isso que abrir os olhos é o primeiro ato de rebeldia contra a moda deste mundo. Não a revolta de quem grita mais alto, mas a rebeldia silenciosa e profunda de quem deixou de aceitar o escuro como destino. O deus deste século pode tudo, menos uma coisa: ele não pode reinar sobre quem vê. Por isso ele guarda a porta da percepção com tanto zelo, vestindo a noite de progresso, chamando a cegueira de bom senso. Mas a porta cede ao toque do Cristo. E no instante em que um homem, antes acostumado às trevas, levanta os olhos e enxerga a luz da glória de Deus no rosto de Jesus, todo o reino da aparência começa a ruir dentro dele.

Que a sua primeira oração, ao virar esta página, seja a mais antiga e a mais nova de todas. A oração do mendigo à beira do caminho que não sabia o que perdia, e a oração de cada um de nós que aprendeu a chamar a escuridão de dia. Senhor, eu não quero mais andar esbarrando nas paredes chamando isso de viver. Abre os meus olhos. E que eu veja.

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