A Moda Deste Mundo · Capítulo 8
A sabedoria do mundo é loucura
Há um lugar que o século ensina todos a desejar, embora ninguém o aponte com o dedo. Não é o topo de uma montanha nem a cadeira de um rei. É um lugar muito mais sutil: ser a pessoa mais inteligente da sala. Aquele que entende o que os outros não entenderam, que percebe o truque antes que ele apareça, que tem sempre a resposta pronta e a réplica afiada. Desde cedo aprendemos a admirar essa figura. Na escola, é quem sabe tudo. No trabalho, é quem nunca se deixa enganar. Nas conversas, é quem dá a última palavra. O mundo coroa a esperteza como coroa poucas coisas — e nos faz acreditar que, se conseguirmos ser sempre os mais espertos, estaremos finalmente a salvo. A inteligência, na moda deste século, deixou de ser um dom e virou um trono.
E o curioso é como esse desejo se disfarça de inocência. Ninguém confessa, em voz alta, que quer ser o mais inteligente da sala — soaria vaidoso, e a vaidade ainda nos envergonha um pouco. Mas o coração faz em silêncio o que a boca não admite. Sentimos um prazer secreto quando vencemos uma discussão. Sentimos um aperto incômodo quando alguém nos corrige diante dos outros. Guardamos, sem perceber, uma pequena lista das vezes em que estávamos certos e os demais errados, e a consultamos quando a autoestima precisa de socorro. A esperteza não é só uma habilidade que admiramos lá fora; é um ídolo que cultuamos cá dentro, no escuro, sem nunca lhe termos construído um altar visível. E como todo culto secreto, ele governa muito mais do que imaginamos.
Mas existe um lugar onde toda essa esperteza para. Existe um ponto diante do qual o homem mais brilhante e o mais simples ficam exatamente na mesma altura, porque ali nenhuma astúcia adianta. Esse lugar é uma cruz. E foi diante dela que o apóstolo Paulo escreveu uma das frases mais escandalosas de toda a Escritura: "Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus" (1 Coríntios 1:18). Loucura. Não dificuldade, não mistério, não complicação. Loucura. A palavra grega é mōria — a mesma raiz de onde vem o nosso "moria", a tolice, o disparate. Aos olhos da sabedoria do século, o centro da fé cristã não é apenas estranho. É ridículo.
Paulo sabia exatamente do que falava, porque escrevia a Corinto — uma cidade apaixonada por sabedoria. Ali se admiravam os oradores, os filósofos, os mestres da palavra elegante e do argumento irrespondível. Ser sábio em Corinto era ser alguém. E foi precisamente nessa cidade, no meio dessa cultura, que o apóstolo decidiu não competir no jogo deles. "Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?" (1 Coríntios 1:20). Ele empilha as perguntas como quem desfaz, uma a uma, as credenciais de que o mundo mais se orgulha. O sábio, o escriba, o inquiridor — todos os títulos da inteligência reunidos diante de uma pergunta só: e de que tudo isso vos serviu para encontrar a Deus?
E havia uma ironia ainda mais aguda na situação de Corinto, porque a igreja de lá começara a contaminar-se com a mesma febre da cidade. Os cristãos tinham passado a se dividir em torno de mestres, como torcidas em torno de craques: um dizia ser de Paulo, outro de Apolo, outro de Cefas, cada qual exibindo o seu professor preferido como quem exibe um diploma. O orgulho intelectual havia atravessado a porta da igreja e se vestido de piedade. Por isso o apóstolo precisa lembrá-los de onde vieram: "olhai, irmãos, para a vossa vocação, que não muitos sábios segundo a carne, não muitos poderosos, não muitos nobres são chamados" (1 Coríntios 1:26). Não muitos. Deus, ao montar a sua igreja, não foi recrutar nos salões dos eruditos; foi buscar pescadores, publicanos, gente comum. Não porque despreze os sábios, mas para que ficasse claro, para sempre, que o que reúne aquele povo não é o brilho de ninguém — é a graça de Deus. A igreja é, por desenho divino, um monumento à insuficiência da esperteza humana.
Aqui está a moda do século que este capítulo precisa nomear sem rodeios. Não é o pensar. Não é o estudo, nem a ciência, nem a curiosidade honesta diante das coisas — Deus mesmo nos deu a mente, e quem despreza o entendimento despreza um presente do Criador. A moda do século é outra: é a autossuficiência da razão. É a convicção, raramente confessada mas profundamente arraigada, de que basta a inteligência humana para dar conta de tudo. De que, com argumentos suficientes, com informação suficiente, com esperteza suficiente, o homem pode se bastar a si mesmo. É a razão que se ajoelha apenas diante de si própria. É a mente que se transformou em ídolo — e que, como todo ídolo, exige que o adoremos prometendo uma salvação que jamais entrega.
Mais adiante na mesma carta, Paulo retoma o tema com uma sentença que corta ainda mais fundo: "Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia" (1 Coríntios 3:19). Repare na imagem. Não é que a sabedoria do mundo seja inútil; é que ela se vira contra quem a possui. O século acha que a astúcia é uma rede com que se capturam vantagens — e descobre, tarde demais, que era a própria rede em que se enredou. Aquilo que parecia uma arma na mão do homem revela-se uma armadilha sob os seus pés. Quem confia na própria esperteza acaba apanhado por ela, como o caçador que cai na cova que cavou. É o destino de toda sabedoria que se ergue contra Deus: ela promete liberdade e entrega laços; promete altura e entrega queda.
Esse ídolo é antigo e veste roupas sempre novas. Foi ele que sussurrou no jardim a primeira tentação intelectual da história: "sereis como Deus, sabendo o bem e o mal" (Gênesis 3:5). Repare que a serpente não ofereceu prazer primeiro, nem poder primeiro. Ofereceu conhecimento. Ofereceu a promessa de saber por si mesmo, de não mais depender, de ter os olhos abertos por uma sabedoria que dispensasse o Doador. A queda começou com uma sede de inteligência autônoma — e essa mesma sede atravessou os séculos até chegar ao nosso, mais refinada, mais articulada, mais convencida de si do que nunca. O século dirá que duvidar de tudo é maturidade, que precisar de Deus é fraqueza de quem não pensa, que a fé é a muleta dos que não tiveram coragem de raciocinar até o fim. E dirá isso com tanta elegância que muitos confundirão a soberba com lucidez.
Mas então vem a palavra que desmonta, e ela não argumenta no terreno do mundo — ela muda o terreno inteiro. Deus não respondeu à arrogância humana mandando um sábio maior, um filósofo mais brilhante, um argumento que vencesse todos os argumentos. Ele fez algo que nenhuma esperteza poderia ter previsto: "aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação" (1 Coríntios 1:21). E mais: "Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes" (1 Coríntios 1:27). Veja a inversão. Deus não derrota a sabedoria do século com uma sabedoria maior. Ele a derrota com aquilo que o século chama de loucura. Escolhe o caminho que nenhum estrategista escolheria, a ferramenta que nenhum especialista recomendaria, a cruz que nenhum sábio teria desenhado. E ali, exatamente ali onde a esperteza humana só consegue ver fracasso e absurdo, Ele esconde "o poder de Deus, e a sabedoria de Deus" (1 Coríntios 1:24).
Por que faz assim? Paulo dá a resposta sem suavizá-la: "para que nenhuma carne se glorie perante ele" (1 Coríntios 1:29). Aí está o coração de tudo. Se Deus se deixasse encontrar pelos mais inteligentes, a salvação seria um prêmio para os espertos, e o céu seria uma academia onde só entram os de raciocínio rápido. Os simples ficariam de fora, os de mente lenta ficariam de fora, as crianças ficariam de fora. Mas Deus fechou esse caminho de propósito. Ele tornou louca a sabedoria do mundo justamente para que ninguém possa subir até Ele pela própria escada — e para que, no fim, ninguém possa se gabar de ter chegado por mérito da própria cabeça. A cruz humilha o intelecto não para insultá-lo, mas para curá-lo da sua pretensão mortal de bastar-se.
E é por isso que Jesus, num dos momentos mais luminosos dos Evangelhos, irrompe em alegria justamente diante desse mistério. "Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos" (Mateus 11:25). Note que Ele não diz isso com tristeza, como quem lamenta uma injustiça. Diz exultando. Jesus se alegra porque o Reino não é uma recompensa para a esperteza, mas um presente para quem se faz pequeno o suficiente para recebê-lo. Os "pequeninos" não são os ignorantes por preguiça; são os que abandonaram a pretensão de saber tudo, os que vêm de mãos abertas em vez de cabeça erguida, os que reconhecem que diante de Deus o mais brilhante dos homens ainda é uma criança aprendendo a soletrar. A revelação não desce pela vaidade. Desce pela humildade. E aos sábios e entendidos — aos que vivem confiantes na própria suficiência — essas coisas permanecem ocultas, não porque Deus as esconda por crueldade, mas porque a soberba é, por sua própria natureza, cega para a graça.
Tudo isso tem um custo, e seria desonesto fingir que não tem. Render a razão diante da cruz não significa parar de pensar; significa parar de adorar o próprio pensamento. E essa é, talvez, a entrega mais difícil de todas, porque enquanto o avarento sabe que ama o dinheiro e o vaidoso sabe que ama os elogios, o orgulhoso da mente raramente percebe que ama a si mesmo na forma das próprias ideias. Custa admitir que não temos resposta para tudo. Custa dizer "eu não sei", "eu preciso", "eu me enganei". Custa ainda mais quando construímos boa parte da nossa identidade sobre o fato de sermos, justamente, os que sabem. Há quem perca tudo na vida e ainda se agarre a esse último orgulho: a certeza de ser mais inteligente que os outros. A cruz pede precisamente esse troféu. E entregá-lo dói como dói toda morte de ídolo.
É preciso dizer com cuidado, porém, o que essa entrega não é, porque o século adora caricaturar a fé como inimiga da razão. Render a inteligência diante da cruz não é apagar a luz da mente; é deixar que uma luz maior entre por uma janela que o orgulho mantinha fechada. Os maiores adoradores de Deus muitas vezes foram também grandes pensadores — não porque tivessem desligado o cérebro, mas porque o tinham colocado no lugar certo, como servo e não como senhor. A mente humilhada diante da cruz não fica mais pobre de pensamento; fica mais rica, porque finalmente pensa a partir da verdade em vez de tentar ser a fonte dela. A diferença entre o sábio do mundo e o sábio do Reino não está na quantidade do que sabem. Está em diante de quem ajoelham. Um ajoelha diante do próprio raciocínio; o outro, diante do Deus que fez o raciocínio possível. E só este segundo descobre que pensar de joelhos enxerga mais longe do que pensar de pé.
Mas onde está o custo, ali também está a liberdade — e que liberdade. Porque o trono da inteligência é, secretamente, um dos mais cansativos que existem. Quem precisa ser sempre o mais esperto da sala nunca pode descansar; vive defendendo posições, temendo ser desmascarado, calculando o que dizer para não parecer tolo. É uma vigilância sem fim, uma performance que não tem intervalo. A loucura da cruz oferece o impensável a essa alma exausta: a permissão de não saber. A permissão de ser pequeno. A permissão de confiar numa sabedoria maior que a sua sem com isso desaparecer. Quem se rende à cruz não fica mais burro — fica livre do peso esmagador de ter de salvar a si mesmo com a própria cabeça. E descobre, com espanto, que há um descanso profundo em deixar de ser deus do próprio entendimento.
No nosso tempo, esse ídolo encontrou o seu paraíso. Vivemos cercados de informação como nenhuma geração antes de nós, e confundimos o acesso a dados com a posse de sabedoria. Achamos que, porque podemos consultar tudo, entendemos tudo. A esperteza virou esporte público: discute-se para vencer, não para aprender; afia-se a réplica para humilhar, não para iluminar; mede-se o valor de uma pessoa pela rapidez com que ela rebate. O século premia o cínico, porque o cínico parece esperto; e desconfia do humilde, porque o humilde parece ingênuo. Nesse cenário, a palavra da cruz continua tão escandalosa quanto em Corinto — talvez mais. Dizer que a salvação vem não de quem mais sabe, mas de quem mais se rende, soa, aos ouvidos do nosso século, como a maior das loucuras. E é exatamente o que é. É a loucura de Deus, que "é mais sábia do que os homens" (1 Coríntios 1:25).
Pense em como mudou o lugar das perguntas no nosso tempo. Antes, perguntar era um gesto de humildade: eu pergunto porque não sei, porque preciso, porque busco. Hoje, a pergunta virou muitas vezes uma arma — pergunta-se para encurralar, não para aprender; lança-se a dúvida como quem joga uma pedra, e a pessoa que mais embaralha o adversário sai aplaudida como a mais inteligente. O século confundiu desconfiar com pensar. Achamos que duvidar de tudo nos faz lúcidos, quando muitas vezes apenas nos faz incapazes de confiar em coisa alguma — e, no fim, mais sozinhos. A cruz inverte isso, como inverte tudo. Ela não pede que paremos de perguntar; pede que voltemos a perguntar como quem realmente quer encontrar, com a humildade de quem admite que talvez a resposta esteja num lugar onde a nossa esperteza nunca pensaria em procurar: num homem que escolheu morrer em vez de provar que tinha razão.
Há também um sintoma mais quieto desse ídolo, e que talvez nos atinja mais do que as discussões barulhentas. É o cansaço de quem precisa entender tudo antes de confiar em alguma coisa. Há pessoas que não conseguem se entregar a Deus porque ainda não resolveram todas as suas perguntas — e adiam a fé para o dia, que nunca chega, em que a razão tiver fechado a última conta. Mas a vida inteira é vivida assim: amamos sem entender por completo quem amamos, confiamos em pontes que não inspecionamos, comemos pão feito por mãos que não conhecemos. Exigir compreensão total como condição para se render é, no fundo, mais uma forma do velho orgulho — a recusa de dar o primeiro passo sem antes ter garantido o controle. A criança não espera entender a física da queda para se atirar nos braços do pai. Ela confia, e por confiar, aprende. O Reino se entra assim, ou não se entra.
A aplicação, então, não é trocar o estudo pela ignorância nem a inteligência pela tolice — isso seria cair no anti-intelectualismo barato que a Escritura nunca pede. Deus quer a sua mente; Ele apenas não quer que a sua mente ocupe o lugar Dele. A pergunta que a cruz faz a cada um de nós é mais íntima e mais incômoda: onde, no fundo, você deposita a sua confiança final? Na sua capacidade de entender, de argumentar, de nunca ser enganado? Ou Naquele que se deixou parecer tolo para te salvar? Examine os seus orgulhos secretos. Repare em quantas vezes você precisa ter razão, em quanto custa dizer "não sei", em como dói a ideia de parecer ingênuo aos olhos dos espertos. Ali, nesse ponto sensível, mora o ídolo. E é ali, nesse mesmo ponto, que a cruz quer fazer a sua obra de cura.
Talvez seja útil imaginar a cena ao pé daquela cruz, no dia em que ela aconteceu. Estavam ali os que sabiam tudo: os doutores da lei, capazes de citar de cor a Escritura inteira; os filósofos do império, treinados na arte de não se deixar enganar; os homens práticos, que mediam o mundo pelo poder e pelo resultado. Para todos eles, aquilo era a prova final de que o tal Jesus não passava de mais um sonhador derrotado. A lógica do mundo estava do lado deles, impecável: um homem que se deixa matar não pode ser o vencedor; um rei sem exército não é rei; um deus que morre não é deus. Cada raciocínio fechava certo. E todos estavam, do começo ao fim, redondamente enganados. Porque o que parecia derrota era a maior vitória da história, e o que parecia loucura era o amor levando a sua decisão até as últimas consequências. A esperteza do século olhou para a cruz e viu um fracasso. A sabedoria de Deus olhou para a mesma cruz e viu a salvação do mundo. Diante da mesma imagem, dois entendimentos — e tudo dependia de qual deles governava os olhos de quem via.
Por isso a verdadeira sabedoria, a que a Escritura chama de princípio de todo o conhecimento, não começa com uma resposta brilhante. Começa com um silêncio. Começa no instante em que a esperteza do século, depois de tudo o que sabe dizer, finalmente se cala diante de um homem pregado num madeiro — e, em vez de zombar mais uma vez, pela primeira vez se ajoelha. Naquele silêncio nasce um entendimento que nenhum argumento poderia produzir: o de que o amor que se entrega é mais profundo do que toda lógica, e que Deus escolheu o caminho que parecia loucura porque era, o tempo todo, o único caminho que era amor. "Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens" (1 Coríntios 1:25). E quem aprende isso já não precisa ser o mais inteligente da sala. Basta-lhe ter encontrado, na loucura da cruz, a sabedoria que o século, com toda a sua esperteza, jamais soube reconhecer. Que a nossa mente seja renovada não para saber mais, mas para curvar-se melhor — e, curvando-se, enfim enxergar.