A Moda Deste Mundo · Capítulo 5

Riqueza contra Provisão

Existe uma pergunta que o século nunca termina de fazer, ainda que raramente a pronuncie em voz alta. Ela não vem em palavras; vem como um aperto no peito ao fim do dia, como uma conta mental que se refaz sozinha enquanto tentamos dormir. A pergunta é simples e implacável: e se não for o bastante? E se faltar? O século aprendeu a viver dentro dessa pergunta como quem aprende a respirar dentro de uma fumaça — sem perceber que está sufocando. E sobre ela construiu toda uma civilização: a do acúmulo. Junte. Guarde. Reserve. Multiplique. Faça muros de bens contra o medo do amanhã. Porque, sussurra o espírito do tempo, quem tem o suficiente está a salvo, e quem está a salvo finalmente poderá descansar. Só que esse "suficiente" recua sempre um passo à frente de quem o persegue. E o descanso prometido nunca chega.

Pense em como o século fala da segurança. Ele a desenha como um número — uma reserva, uma meta, uma cifra que, uma vez alcançada, fará o medo ir embora para sempre. É a fantasia mais difundida do nosso tempo, e talvez a mais cruel, porque é a que nunca cumpre o que jura. Pergunte a quem chegou ao número e descobriu que ele havia se mudado de lugar. O que parecia muito agora parece pouco diante do que o vizinho tem, diante do que poderia dar errado, diante de um amanhã que se reinventa em ameaças. Foi disto que Jesus falou ao homem rico de uma de suas parábolas, aquele que, vendo a terra produzir em abundância, disse à própria alma: "tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e folga". E ouviu, naquela mesma noite, a sentença: "Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?" (Lucas 12:19-20). O drama do homem não foi ter colhido muito. Foi crer que o muito colhido era a sua paz.

É a esse coração apertado que Jesus dirige uma das passagens mais luminosas e mais inquietantes de todo o seu ensino. Está no centro do Sermão da Monte, logo depois de Ele falar sobre o tesouro do coração — "porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração" (Mateus 6:21) — e logo depois de advertir que "ninguém pode servir a dois senhores". As palavras vêm assim: "porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom" (Mateus 6:24). E então, como se virasse a página do diagnóstico para a do remédio, acrescenta: "Por isso vos digo: não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir" (Mateus 6:25). Não é um discurso contra o trabalho, nem um elogio da imprevidência. É algo mais profundo. É a denúncia de um senhor falso e a apresentação de um Pai verdadeiro.

É preciso ver onde Jesus coloca essa palavra. Ela não cai do céu solta; está costurada entre o tesouro e a confiança, entre o coração e o olhar. Antes de falar do dinheiro, Ele falou do tesouro que não se acumula na terra, onde a traça e a ferrugem o consomem, mas no céu, onde nada o corrói (Mateus 6:19-20). Depois de falar do dinheiro, falará das aves e dos lírios. No meio, como dobradiça de toda a passagem, está a frase sobre os dois senhores. O lugar não é casual. Jesus está nos dizendo que a questão do dinheiro nunca foi, em primeiro lugar, uma questão de bolso. É uma questão de altar. O que está em jogo não é quanto temos, mas a quem servimos com o que temos.

A moda do século, neste ponto, tem um nome muito antigo. Jesus não o traduz; deixa-o soar na sua língua original, e essa escolha já diz alguma coisa. Mamom — em aramaico, mamona, mamonas no grego do Evangelho — não era exatamente o nome de um ídolo de pedra com altar e sacerdotes. Era simplesmente a palavra para riqueza, bens, dinheiro, aquilo em que um homem deposita a sua confiança. Os estudiosos notam, aliás, que a raiz da palavra parece aparentada àquela de onde vem "amém" — a ideia de algo firme, seguro, aquilo em que nos firmamos. Mamom é, literalmente, aquilo em que se confia. E é precisamente aí que mora o veneno. Jesus pega uma coisa que ninguém considerava uma divindade — apenas recurso, apenas meio — e a desmascara como um senhor. Porque a riqueza, no instante em que deixa de ser serva e passa a ser segurança, sobe ao trono. Ela começa a exigir adoração. Começa a ditar as decisões. Começa a prometer o que só Deus pode dar: a paz de quem sabe que o amanhã está garantido. Mamom não pede que você o chame de deus. Pede apenas que você confie nele como num deus. E o século inteiro o faz, de joelhos, sem nunca admitir que está orando.

Há uma sabedoria terrível na escolha que Jesus faz das palavras "odiar" e "amar", "dedicar-se" e "desprezar". À primeira vista parecem fortes demais para uma decisão sobre dinheiro. Mas Ele sabe o que está dizendo. O problema não é possuir bens; é ser possuído por eles. Abraão era riquíssimo, e foi chamado amigo de Deus. José administrou o celeiro de um império inteiro, e o fez como servo do Senhor. A Escritura não condena o pão sobre a mesa nem o teto sobre a cabeça. O que ela expõe é a divisão impossível do coração. Pois o coração humano foi feito para um único trono. Tentar dividi-lo entre Deus e Mamom não produz dois amores morno; produz um amor traído. Sempre que tentamos servir aos dois, é a Deus que acabamos relegando ao segundo lugar — porque Mamom, ao contrário Dele, faz barulho, cobra todos os dias, e nunca se contenta com o resto.

Esta é a verdadeira religião do nosso tempo, e o seu culto é a ansiedade. Repare como ela tem todos os traços de uma fé invertida. Tem o seu dogma — a certeza inabalável de que a segurança se compra e se estoca. Tem a sua liturgia — o ritual incessante de calcular, comparar, prevenir, conferir o saldo como quem confere uma profecia. Tem os seus pecados — o desperdício, a falta, o ficar para trás. E tem a sua promessa de salvação, sempre adiada para quando houver o bastante. A ansiedade não é, como pensamos, um simples nervosismo passageiro. É o estado de alma de quem entronizou Mamom e descobriu, tarde demais, que esse senhor não conhece a palavra "descanso". Ele paga o seu servo com mais trabalho e mais medo. E o século chama essa escravidão de prudência, essa inquietação de responsabilidade, esse acúmulo sem fim de bom senso. Veste a corrente de virtude e a oferece como liberdade.

Vale prestar atenção ao verbo que Jesus usa três vezes nesta passagem, como um sino que repete a mesma nota: "não andeis cuidadosos", "não andeis inquietos", "não estejais ansiosos". A palavra grega, merimnaō, traz a imagem de uma mente repartida, puxada em direções opostas, dividida ao meio pela preocupação. É a alma fendida pelo amanhã. E não é por acaso que esse mesmo apetite da posse foi nomeado pelo apóstolo João como "a concupiscência dos olhos" (1 João 2:16) — porque é pelos olhos que ele entra. O olho mede, compara, cobiça, calcula. Vê o que o outro tem e acende a fome do que falta. O século hoje conhece bem essa porta: faz desfilar diante dos nossos olhos, sem cessar, a vida de todos os outros, sempre mais polida, mais farta, mais resolvida que a nossa. E o olho, esse mendigo insaciável, transmite à alma a velha mentira: você ainda não tem o bastante. A inquietação não nasce, em geral, da falta real. Nasce da comparação. O servo de Mamom raramente sofre por não ter pão; sofre por não ter o pão do vizinho.

Contra essa religião do medo, Jesus não levanta um argumento. Levanta o dedo e aponta para o céu e para o campo. "Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?" (Mateus 6:26). E depois: "Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles" (Mateus 6:28-29). Note a delicadeza do método. Ele não nos manda ler um tratado de teologia; manda-nos olhar pela janela. A ave não tem celeiro, e está alimentada. O lírio não tem tear, e está vestido de uma beleza que envergonha a púrpura dos reis. A criação inteira vive da provisão, não do acúmulo. Recebe o pão do dia no dia, e no dia seguinte recebe de novo. E não morre de medo na véspera.

Há uma ironia mansa nessas palavras que é fácil deixar passar. Quem cobiçava bens no tempo de Jesus invejava Salomão — o rei do ouro, das frotas, dos tesouros lendários, o homem que fizera a prata tão comum em Jerusalém como as pedras. E Jesus, com um sorriso quase audível, diz: olhe a flor do campo, que amanhã será lançada ao forno, e veja como ela está vestida mais ricamente do que aquele rei em todo o seu esplendor. O auge da riqueza humana, posto ao lado de uma flor silvestre, empalidece. Não porque a flor seja rica, mas porque é cuidada. A diferença entre Salomão exausto e o lírio sereno não é o tamanho do guarda-roupa. É que o lírio confia, e o homem se afadiga. E então vem a flecha mais delicada e mais cortante de toda a passagem: "se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?" (Mateus 6:30). Repare: Ele não diz "homens de nenhuma fé". Diz "pouca fé". A ansiedade, aos olhos de Jesus, não é primeiro um problema de finanças. É um sintoma de fé pequena. E a cura não é mais dinheiro. É mais confiança.

Aqui está a inversão exata do Reino, e é preciso ouvi-la com cuidado para não a distorcer. Jesus não diz que a ave é rica. Ela não tem reservas, não tem patrimônio, não tem garantia escrita de que o amanhã virá com comida. O que ela tem é um Pai. A diferença entre o ensino do século e o ensino do Reino não está na quantidade de bens, mas na direção do olhar. O mundo olha para o celeiro e pergunta: está cheio o bastante? O Reino olha para o Pai e pergunta: posso confiar Nele? E é por isso que esta passagem nada tem a ver com aquela promessa torta que confunde fé com fartura, que vende o Reino como atalho para a riqueza e transforma Deus num Mamom batizado. Não. A provisão de que Jesus fala não é a garantia de abundância. É a fidelidade do Pai que sustenta os seus, muitas vezes na simplicidade, às vezes na escassez, sempre com o suficiente para o dia. O lírio não acumula, e floresce. O verdadeiro contrário da ansiedade não é a riqueza. É a confiança.

E confiar, é justo dizê-lo, custa. Custa mais do que parece a quem nunca tentou. Largar o leme do próprio futuro nas mãos de Outro vai contra cada fibra ensinada pelo século. A mente treinada no acúmulo grita que isso é loucura, que o Pai pode falhar, que o celeiro é mais confiável que a fé. E há, é verdade, uma renúncia real escondida nessa entrega: a renúncia ao controle, à ilusão de que somos os senhores do nosso pão. Mas é precisamente nesse ponto que se abre a porta secreta da liberdade. Porque quem confia não precisa acumular. Quem sabe que tem Pai não passa a vida construindo muros contra o amanhã. O escravo de Mamom trabalha para nunca faltar e, por isso, nunca tem o bastante; o filho do Pai trabalha de mãos abertas, dá sem tremer, dorme sem conferir o saldo, e descobre que o pouco entregue rende mais paz do que o muito guardado. A liberdade do Reino não é ter tudo. É não precisar ter tudo para estar em paz.

É bom dizer claramente, porém, o que essa provisão não é, para que ninguém troque o ouro do Reino por uma falsificação reluzente. A confiança que Jesus ensina não é a promessa de que o cristão jamais conhecerá a escassez, nem a garantia de que a fé funcione como uma fórmula para enriquecer. Essa é outra moda do século, ainda mais sedutora porque vem vestida de espiritualidade — a que transforma Deus num Mamom de outro nome, um caixa celestial de quem se cobra prosperidade. Não é disso que falamos. O mesmo Jesus que prometeu o pão de cada dia não teve onde reclinar a cabeça. O mesmo apóstolo que escreveu "o meu Deus suprirá todas as vossas necessidades" também testemunhou: "sei estar abatido, e sei também ter abundância... assim a estar farto como a ter fome, assim a ter abundância como a padecer necessidade" (Filipenses 4:12, 19). A provisão não é a abolição da simplicidade. É a presença do Pai dentro dela. Não é a certeza de que nunca faltará nada; é a certeza de que nunca faltará Ele. Muitos santos passaram pelo vale da escassez sem nunca terem sido abandonados, e descobriram ali, com mais pão do que muitos ricos, a doçura de depender de Deus.

É por isso que Jesus encerra essa palavra não com uma proibição, mas com uma reordenação do coração. "Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque a todas estas coisas os gentios procuram. De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas. Mas buscai primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas" (Mateus 6:31-33). Aqui está a chave que destranca tudo. O século coloca a segurança em primeiro lugar e espera que, depois de garantida, sobre algum tempo para Deus. Jesus inverte a ordem por inteiro. Buscai primeiro — não em terceiro, não no que sobrar, mas primeiro — o Reino. Ponde Deus no trono que Mamom usurpou. E aquilo pelo qual o mundo se desfaz de ansiedade vem como acréscimo, não como conquista; como dom de um Pai, não como troféu de um lutador exausto.

Para o leitor de hoje, isto não é abstração piedosa. É uma faca que separa duas vidas possíveis. Não se trata de fazer voto de pobreza nem de fingir que as contas não existem — o Pai mesmo "sabe que necessitais de todas estas coisas". Trata-se de perguntar, com honestidade, a quem pertence o trono do nosso coração. Onde corre o nosso pensamento quando estamos sozinhos? O que nos rouba o sono? Quando imaginamos uma vida boa, o que aparece primeiro: o rosto do Pai ou o tamanho do celeiro? Há uma maneira simples e desarmante de testar a própria alma: tente dar. Tente abrir a mão. O que se contrai por dentro, o que protesta, o que sussurra "e se faltar?" — ali está a medida exata do quanto Mamom ainda reina. Não para nos condenar, mas para nos mostrar onde a luz precisa entrar. A generosidade é o exorcismo cotidiano do deus do acúmulo: cada vez que damos sem medo, derrubamos um pouco do seu altar.

Há também uma disciplina escondida na frase "basta a cada dia o seu mal" (Mateus 6:34), com que Jesus encerra todo o trecho. O segredo da paz não está em resolver de uma vez todos os amanhãs, porque isso nenhum mortal consegue. Está em receber a vida em porções de um dia, como o maná no deserto, que não podia ser estocado: o povo o recolhia pela manhã, comia o do dia, e o que tentavam guardar para a véspera criava bichos e apodrecia (Êxodo 16). Era uma escola diária de confiança. Cada amanhecer trazia de novo a pergunta — você vai confiar hoje? — e cada anoitecer trazia a resposta — Ele proveu. A ansiedade do século vive no futuro, num amanhã que ainda não chegou e que talvez nunca chegue como o tememos. A confiança do Reino vive no hoje, no pão de hoje, na graça de hoje, e deixa o amanhã nas mãos de quem já está lá esperando por nós. Boa parte do peso que carregamos é o peso de dias que ainda não existem. Soltar esse peso não é descuido. É fé.

E talvez seja esta a transformação mais necessária e mais difícil de toda a renovação do entendimento. Não basta gastar menos ou poupar com mais juízo; isso o século também sabe ensinar. O que Jesus pede é uma metamorfose na raiz do desejo, uma mudança de senhor. É deixar de medir a vida pela altura dos muros e passar a medi-la pela proximidade do Pai. É olhar a ave que voa sem celeiro e o lírio que floresce sem tear e crer, contra toda a aritmética do medo, que Aquele que os sustenta não esqueceria de um filho.

Essa metamorfose não acontece de uma vez, com um único gesto heroico. Acontece como acontece toda mudança verdadeira: por dentro, devagar, na renovação paciente do entendimento. Começa quando a mente, antes treinada para perguntar "será o bastante?", aprende a perguntar "Quem é o meu Pai?". Começa quando paramos de olhar para o celeiro como fonte de paz e passamos a olhar para Ele. Não se trata de despojar-se de tudo numa noite, mas de despojar o coração do trono usurpado, dia após dia, até que o dinheiro volte ao seu lugar de servo e Deus retome o lugar de Senhor. É a inversão que Jesus pediu no centro de tudo: buscar primeiro o Reino, e descobrir que a vida, posta nessa ordem, deixa de ser uma corrida e volta a ser um dom.

No fim, a moeda corrente do Reino não é o ouro que se ajunta, mas a confiança que se entrega. E o que ela compra, Mamom jamais poderá vender: o coração que repousa. O servo do acúmulo morre rico e ansioso; o filho do Pai vive — mesmo quando tem pouco — com a serenidade de quem sabe de quem é. Pois quem confia não precisa acumular. E quem deixa de acumular descobre, enfim, que tinha o bastante o tempo inteiro, porque tinha o Pai.

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