A Moda Deste Mundo · Capítulo 7
Autopreservação contra Entrega
Há um instinto mais antigo do que a ambição, mais fundo do que a vaidade, anterior a todos os apetites de que já falamos neste livro. Não é o desejo de ter mais, nem a fome de subir, nem a sede de aparecer. É algo que mora debaixo de tudo isso, na raiz onde os desejos nascem antes de terem nome. É o instinto de continuar existindo. O reflexo da mão que se fecha, do corpo que recua diante do perigo, do ser que, acima de qualquer outra coisa, quer permanecer. Quer durar. Quer se salvar. Esse instinto não é, em si, pecado — Deus o pôs em nós para que vivêssemos. Mas o século fez dele um deus. Pegou a coisa mais natural do mundo, o desejo de não morrer, e o entronizou no lugar mais alto da alma, e o transformou na lei suprema sob a qual todas as outras leis se curvam. Salve-se. Proteja-se. Garanta-se. Não se exponha. Não se entregue. E debaixo dessa lei vivem, sem saber, multidões inteiras que se julgam livres.
É contra essa lei — a mais profunda, a mais arraigada, a que parece o próprio bom senso da existência — que Jesus pronuncia algumas das palavras mais graves que jamais saíram da boca de um homem. Estamos no capítulo dezesseis do Evangelho de Mateus. Pedro acabara de confessar, com inspiração do alto, que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo. E então o Mestre começa a revelar o que isso significaria: que Ele deveria ir a Jerusalém, padecer muito, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. Pedro, o mesmo que acertara em cheio momentos antes, agora se rebela. Toma a Jesus à parte e o repreende: "Senhor, tem compaixão de ti; de modo nenhum te aconteça isso" (Mateus 16:22). Ouça o que há nessas palavras. É o instinto falando. É a voz da autopreservação, terna, razoável, quase piedosa, vestida de cuidado. Tem compaixão de ti. Poupa-te. Salva-te. E a resposta de Jesus é uma das mais duras do Evangelho: "Arreda-te de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens" (Mateus 16:23).
Repare na fratura que se abre ali, porque é a mais profunda de todas as fraturas entre os dois reinos. Jesus não chama de "satanás" um apetite grosseiro, uma cobiça vulgar, um pecado óbvio. Ele dá esse nome ao instinto de se preservar. À sabedoria que diz: poupa-te a dor, evita a cruz, garante a tua vida. Aquilo que para o mundo é o mais elementar dos bons-sensos, Jesus identifica como a própria lógica do adversário travestida de zelo. "Não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens." Há, então, duas inteligências em conflito. Uma é a das coisas dos homens, e ela tem um único mandamento gravado no fundo de si: sobrevive. A outra é a das coisas de Deus, e ela fala uma língua que ao homem natural soa como loucura.
E é essa língua que Jesus passa a falar, voltando-se de Pedro para todos os discípulos: "Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, e tome sobre si a sua cruz, e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim achá-la-á. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?" (Mateus 16:24-26). Leia isto devagar, porque o costume o gastou e a familiaridade o domesticou, e nós já não trememos diante de uma sentença que deveria nos parar o coração. Quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la. O verbo é o mesmo das duas vezes — sōzō, salvar, e psychē, a vida, a alma, o próprio eu que respira. O que Jesus diz é simplesmente isto: a lei suprema do século, a que promete a vida, é exatamente a que a destrói. O instinto de autopreservação, levado ao trono, mata aquilo que jurava proteger. O punho que se fecha sobre a própria vida para guardá-la aperta até esmagá-la.
A moda deste mundo, em todas as suas variações, é uma só religião com um só deus, e esse deus é o eu que quer se preservar. Tudo o que vimos nos capítulos anteriores brota daqui. Por que o século idolatra a riqueza? Porque o acúmulo é a fortaleza onde o eu se entrincheira contra a incerteza do amanhã; ter mais é, no fundo, uma tentativa de não morrer. Por que persegue o status? Porque ser reconhecido, ser admirado, ser maior que os outros é uma forma de o eu garantir que existe, que importa, que não será esquecido nem descartado; a soberba é o medo da própria insignificância vestido de orgulho. Por que se entrega ao prazer sem limite? Porque o gozo do instante é o anestésico que faz esquecer, por um momento, que se é mortal. Raspe o verniz de qualquer apetite do mundo e encontrará, no fundo, a mesma raiz pálida e nervosa: um eu apavorado, agarrado a si mesmo, fazendo de tudo para não se perder. A autopreservação é a mãe de todos os ídolos. E o século a ergueu tão alto, e a tornou tão respeitável, que ousou chamá-la de amor-próprio e de instinto saudável, e construiu sobre ela escolas inteiras de como viver.
E como ela prega bem, esta religião. Não fala em tom de ameaça; fala em tom de conselho carinhoso, e é assim que nos conquista. Cuide de você primeiro, ela sussurra, ninguém vai cuidar por você. Não se entregue demais, vão se aproveitar. Não ame mais do que é amado, é prejuízo. Proteja o seu coração, guarde as suas energias, estabeleça os seus limites, ponha-se sempre em primeiro lugar — e a tudo isso o século dá nomes nobres, fala de autoestima, de autocuidado, de saber o próprio valor, e enche os ouvidos da geração com a doutrina de que a vida é uma propriedade privada que se deve administrar com lucro e defender com unhas. O homem do século aprende a calcular cada gesto pela medida do que recebe de volta. Mede o amor pela reciprocidade, a generosidade pelo retorno, a entrega pelo risco. Construiu para si uma vida de muros — muros contra a decepção, muros contra a dependência, muros contra qualquer um que possa pedir-lhe demais. E chama essa cidadela fechada de liberdade, sem perceber que apenas trocou de prisão. Porque há uma solidão imensa no fundo do projeto de se salvar sozinho. O eu blindado contra toda ferida fica também blindado contra todo abraço. Quem se guarda inteiro, ao fim, fica apenas — guardado. Sozinho com a própria vida intacta e estéril, como o grão que não quis cair.
O Reino chega e desmonta essa religião pela raiz, não pelos galhos. Jesus não diz apenas "gaste menos", "sirva mais", "modere os prazeres" — isso seria podar a árvore. Ele vai ao tronco, à própria seiva: renuncie-se a si mesmo. Negue o eu que quer se salvar. A palavra que Almeida traduz por "renunciar-se" é, no grego, aparneomai — o mesmo verbo que descreve Pedro negando Jesus no pátio do sumo sacerdote. "Não o conheço; não sou dos seus." Jesus toma essa palavra terrível e a inverte: assim como Pedro renegaria a Cristo, o discípulo é chamado a renegar a si mesmo. A dizer ao próprio eu tirânico, àquela voz que exige sobreviver a qualquer custo: não te conheço como senhor; não sou teu servo; já não governas aqui. E em seguida vem a imagem que o século não consegue ouvir sem estremecer: tome a sua cruz. No tempo de Jesus, a cruz não era uma joia ao pescoço nem um símbolo numa parede. Era o instrumento da morte mais vergonhosa que Roma sabia infligir. Tomar a cruz era carregar a própria forca pela estrada, sob o riso da multidão, a caminho do lugar onde se ia morrer. Jesus diz: este é o caminho. Não para alguns heróis raros, mas para qualquer um — "se alguém quiser vir após mim". A porta do Reino tem a forma de uma cruz, e ninguém passa por ela carregando o eu inteiro nos braços.
E então o Mestre fecha o ensino com uma pergunta que atravessa os séculos como uma espada: "Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?" Pare nessa pergunta. Ela é a balança em que toda vida acaba sendo pesada. O século vive correndo atrás do mundo — o mundo inteiro, se possível: todas as coisas, todas as conquistas, todas as seguranças que o instinto de preservação sonha acumular. E Jesus não nega que se possa ganhá-lo. Admite, por hipótese, o sucesso total do projeto do século: imagine que você consiga tudo, que blinde a sua vida contra toda perda, que vença em cada disputa, que junte cada bem, que se preserve perfeito até o fim. E daí? "Que aproveita?" Porque a mesma palavra grega que aqui se traduz por "vida", psychē, é a que mais adiante se traduz por "alma" — a vida que respira e a vida que permanece, o sopro e o ser, tudo o que verdadeiramente sou. Jesus está dizendo: você pode passar a existência inteira salvando a casca e perder o tesouro que ela guardava. Pode ganhar o invólucro e perder o conteúdo. Não há câmbio possível para essa perda — "que dará o homem em recâmbio da sua alma?" (Mateus 16:26). Existe um preço acima do qual nada no mundo paga, e esse preço é você mesmo. O século, que ensina a calcular tudo, esqueceu-se de fazer esta única conta que importa.
Mas a Escritura não nos deixa diante dessa porta apenas com o peso da morte. Jesus mesmo traduz a cruz numa imagem que vem da terra, simples, paciente, cheia de promessa: "Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto" (João 12:24). Olhe para o grão de trigo na palma da mão. Enquanto ele se guarda, enquanto permanece inteiro, seco, fechado sobre si mesmo, está perfeitamente seguro — e perfeitamente estéril. Fica ele só. A autopreservação preserva, sim, mas preserva a solidão e a esterilidade. Para que o grão se torne espiga, para que de um nasçam cem, ele precisa cair, precisa abrir-se, precisa deixar de ser grão. Precisa, na linguagem do mundo, perder-se. E é então, e só então, que ele encontra a sua verdadeira vida — não a vidinha guardada do grão isolado, mas a vida transbordante da messe que dele brota. Eis o segredo escondido no coração do universo de Deus, escrito até na biologia do campo: a vida que se agarra a si mesma apodrece; a vida que se entrega frutifica. Jesus não inventou uma regra arbitrária para tornar a fé difícil. Ele apenas revelou a lei mais profunda da realidade, a mesma que o Pai escreveu na semente, na primavera, na própria cruz onde Ele mesmo cairia para dar muito fruto.
Não nos enganemos quanto ao custo. Esta entrega é morte, e morrer dói. Renunciar-se não é um exercício devocional fofo, uma frase bonita para um cartão; é uma luta que se trava no escuro, todos os dias, contra a coisa mais forte que existe dentro de nós. O eu não abdica do trono em silêncio. Ele negocia, ele se disfarça, ele volta a sentar-se no lugar de onde foi tirado assim que baixamos a guarda. Há um Getsêmani em cada vida que leva a sério estas palavras — um lugar onde se sua, onde se chora, onde se reza "passa de mim este cálice" antes de se conseguir dizer "todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua" (Lucas 22:42). A cruz que Jesus manda tomar não é leve. Custa o casamento que escolhemos servir em vez de dominar. Custa o dinheiro aberto em vez de entesourado. Custa o perdão dado a quem não merece, a verdade dita quando o silêncio era mais seguro, o tempo gasto com quem nada nos devolve, a reputação arriscada por amor. Custa, em mil pequenas mortes diárias, a satisfação de ter razão, de ser servido, de ser o primeiro, de estar protegido. A entrega não tem desconto. Quem prometer um discipulado sem cruz está vendendo outra coisa, não o Evangelho.
E, no entanto — e aqui está a inversão que faz desta a mais grave e ao mesmo tempo a mais alegre de todas as palavras — do outro lado dessa morte há uma vida que o século não pode sequer imaginar. "Quem perder a sua vida por amor de mim achá-la-á." Achará. Não se trata de perder e ficar perdido; trata-se de soltar para enfim encontrar. O paradoxo do Reino é que a entrega é o único caminho para a posse verdadeira de si. Pergunte a quem ama de verdade: a vida só começou a ter sabor quando deixou de girar em torno de si mesma. Pergunte a quem serve sem cálculo, a quem perdoa sem garantia, a quem dá sem esperar retorno — todos lhe dirão a mesma coisa estranha e luminosa: nunca estive tão vivo quanto quando deixei de me proteger. O eu encolhido sobre si mesmo é uma prisão; e a porta dessa prisão, por uma misericórdia incompreensível, abre-se por dentro, e se chama entrega. O grão que cai descobre que não morreu para o nada — morreu para a colheita. Quem larga a vidinha guardada recebe a Vida, com letra maiúscula, a que nem a morte alcança, porque é a própria vida de Deus partilhada com a criatura.
E há, nessa descoberta, uma libertação que precisa ser dita com todas as letras, porque o medo dela mantém tanta gente acorrentada. Quem já não vive para se preservar deixa de ter o que perder — e por isso mesmo não pode mais ser chantageado pelo medo. O século governa pelo medo: medo de perder o conforto, a aprovação, a segurança, o lugar, a própria vida. Mas como ameaçar quem já entregou tudo isso de mãos abertas? Quem morreu antes de morrer já não teme a morte; quem soltou a vida já não pode ser dominado por quem promete tirá-la. Aí está a liberdade mais alta que existe debaixo do céu: não a de quem tem tanto que nada o pode tocar, mas a de quem soltou tanto que nada mais o pode prender. O mártir canta na fogueira não porque não sinta o fogo, mas porque já não tem nada a defender — e essa mesma liberdade, em forma menor e cotidiana, é oferecida a cada um de nós, todos os dias, na pequena cruz que nos cabe carregar.
Como isto desce ao chão de uma quinta-feira comum, à vida de quem lê estas linhas longe de qualquer cruz romana? A entrega raramente nos chega em forma de martírio espetacular. Ela vem fatiada, miúda, quase invisível, exatamente nos lugares onde o instinto de autopreservação manda recuar. Vem na hora em que você poderia se defender e escolhe não revidar. Na hora em que poderia guardar a mágoa como um seguro contra futuras decepções, e escolhe entregá-la. Na hora em que a carreira pediria uma pequena desonestidade para se proteger, e você prefere perder a vantagem a perder a alma — porque "que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?". Vem quando você ama alguém sabendo que pode ser ferido, e ama assim mesmo, em vez de blindar o coração. Vem na decisão de servir quando ninguém vê e ninguém aplaude, de gastar a tarde com o filho cansado em vez de descansar, de visitar o doente que não tem como retribuir, de dizer a verdade que pode lhe custar caro. Vem até no modo de orar — quando se deixa de pedir apenas a Deus que proteja a própria vida e se começa a pedir, com temor, que Ele faça dela uma vida que vale a pena entregar. Cada uma dessas escolhas é um grão de trigo que você deposita na terra. Cada uma é uma pequena morte, e cada pequena morte é uma renúncia ao deus do eu, um treino para a entrega maior, um ensaio diário da liberdade. Ninguém aprende a soltar a vida de uma só vez, num gesto heroico; aprende-se aos poucos, soltando os dedos um a um, descobrindo a cada vez que a mão aberta não ficou vazia. E aqui está o ponto que renova o entendimento: não se trata de odiar a si mesmo, de desprezar a vida que Deus deu, de buscar o sofrimento como se a dor fosse virtude. Trata-se de algo mais sutil e mais libertador — de tirar o eu do centro do universo, do lugar de deus que ele nunca soube ocupar sem virar tirano, e de o devolver ao seu lugar de criatura amada, segura não no próprio punho fechado, mas nas mãos de Quem a sustenta.
Por isso esta fratura, a mais profunda de todas, é também a porta mais larga. Toda a moda deste mundo se desmancha quando o eu desce do trono, porque era ele quem dava ordem a todos os apetites; deposto o rei, o reino inteiro do século perde o seu governo dentro de nós. Renovar o entendimento, aqui, é a renovação mais radical que existe: é parar de crer na primeira mentira, a que sussurra que salvar-se é a única sabedoria, e começar a crer na palavra que parecia loucura — que a vida não se guarda, se semeia. O Filho do Homem não pediu de nós nada que Ele mesmo não tenha feito primeiro: desceu, esvaziou-se, caiu na terra como o grão, e do seu sepulcro brotou a messe de todos os redimidos. Ele soltou a vida — e nela todos nós a encontramos. Aí está, então, o convite final deste capítulo, e talvez de todo o livro: solte. Abra a mão. O punho que se fecha para guardar a vida é o mesmo que a esmaga; a mão que se abre para entregá-la é a mesma que a recebe de volta, transfigurada, eterna, cheia de fruto. Só se encontra a vida soltando-a. E a fratura mais funda entre os dois reinos, aquela que parecia o fim de tudo, revela-se, no fim, a única porta para começar a viver.