A Moda Deste Mundo · Capítulo 3

O príncipe da potestade do ar

Dizem que, se você perguntasse a um peixe o que é a água, ele não saberia responder. Não porque seja burro, mas porque nunca esteve fora dela. A água não é uma das coisas que o peixe vê; é aquilo através do qual ele vê todas as coisas. É o meio em que respira, em que se move, em que existe. Está tão perto, tão dentro, tão em volta, que se tornou invisível. O peixe não nada na água como quem nada num rio que escolheu; ele nada na água como quem nada na própria vida. E é justamente por ser invisível que a água o governa por inteiro. Ninguém obedece com tanta fidelidade quanto quem nem percebe que está obedecendo.

Há uma água assim para nós. Um meio que respiramos sem nomear, uma corrente que nos carrega sem nos pedir licença, um ambiente espiritual em que estamos tão imersos que paramos de notá-lo. Chamamos essas coisas de "o normal", de "como o mundo funciona", de "a vida que todos levam". E é aí, exatamente aí, no que nos parece mais óbvio e mais neutro, que mora o poder do qual fala este capítulo. Não o poder que grita; o poder que sussurra. Não o que nos prende com correntes de ferro; o que nos embala com correntes de ar.

O apóstolo Paulo escreveu aos efésios algumas das palavras mais densas e mais incômodas de toda a Escritura sobre essa imersão. Falando de como vivíamos antes de Cristo, ele diz: "Nos quais noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência" (Efésios 2:2). Repare na arquitetura da frase. Paulo não está descrevendo escolhas isoladas, pecados avulsos, deslizes de pessoas más. Ele está descrevendo um andar — um modo de caminhar — que segue um curso, e esse curso segue um príncipe, e esse príncipe opera por meio de um espírito que se move como o ar. Há um governante. E há um meio através do qual ele governa. O governante é uma pessoa; o meio é uma atmosfera.

No primeiro capítulo deste livro, olhamos de frente para quem governa: o deus deste século, que cega o entendimento dos incrédulos (2 Coríntios 4:4). Demos nome ao soberano. Acendemos a luz sobre o trono. Agora a pergunta é outra, e mais sutil. Não "quem manda", mas "como ele manda". Não o rosto do poder, mas o método dele. Porque um tirano que se mostra é metade vencido — quem o vê pode resistir a ele. O perigo maior não é o déspota visível; é a forma invisível como o despotismo entra em nós, se acomoda, vira hábito, vira gosto, vira a coisa mais natural do mundo. Paulo nos dá a pista no nome que escolhe. Não diz "o príncipe da espada" nem "o príncipe do calabouço". Diz "o príncipe da potestade do ar". O domínio dele é aéreo. Ele reina pelo que se respira.

Pense no que é o ar. É a única coisa que nunca decidimos consumir e da qual, mesmo assim, dependemos a cada instante. Você escolhe o que come, escolhe o que bebe, escolhe, em alguma medida, o que lê e o que ouve. Mas ninguém escolhe respirar. O ar entra. Entra enquanto você dorme, enquanto trabalha, enquanto reza. Entra sem pedir permissão e sem pedir atenção. E é exatamente esse o método do príncipe deste mundo. Ele não te convence de uma ideia; ele te ambienta numa atmosfera. Não te entrega um argumento que você possa examinar e recusar; ele te dissolve num clima que você simplesmente absorve. A mentira que se discute é uma mentira que se pode rejeitar. A mentira que vira ar é a mentira que ninguém pensa em rejeitar, porque ninguém percebe que é uma mentira — virou apenas "o jeito que as coisas são".

Veja como isso funciona no dia que você acabou de viver. Você não acordou e decidiu, num ato consciente de vontade, que o valor de uma pessoa se mede pela atenção que ela atrai. Ninguém te entregou esse credo numa folha de papel para você assinar. E, no entanto, ele está em você, em mim, em todos. Ele entrou como o ar entra. Você não decidiu acreditar que ter mais é estar mais seguro, que aparecer é existir, que parar é ficar para trás, que o sucateamento dos outros é o preço natural da própria subida. Você não decidiu nada disso. Você respirou. E o que se respira por anos vira a forma do pulmão. A genialidade terrível desse príncipe é que ele nunca te pede para concordar com ele. Ele só te pede para continuar respirando, e confia que a corrente fará o resto.

E note que o ar do século não é uma coisa só. Ele é uma mistura, e cada época respira a sua dosagem particular. Há um ar feito de pressa, que nos convence de que parar é pecado e de que descansar é desperdício. Há um ar feito de comparação, que nos faz medir a própria vida pela vida alheia e sair perdendo sempre, porque há sempre alguém adiante. Há um ar feito de ruído, que nos ensina a ter pavor do silêncio, porque é no silêncio que as perguntas perigosas começam a subir. Há um ar feito de aparência, em que parecer bem importa mais do que estar bem, e a casa por dentro pode ruir contanto que a fachada continue de pé. Respiramos tudo isso junto, sem separar, como quem inspira fumaça sem distinguir os gases. E a fumaça vai forrando o peito de um jeito tão lento que ninguém marca o dia em que começou a tossir.

O mais astuto de tudo é que essa atmosfera se apresenta vestida de virtude. Ela não diz "seja ganancioso"; diz "seja ambicioso", e aplaude. Não diz "seja vaidoso"; diz "cuide da sua imagem", e recompensa. Não diz "seja escravo do trabalho"; diz "seja dedicado", e premia. O príncipe da potestade do ar raramente vende o vício com o nome de vício; ele o reembala com o nome de uma virtude e o coloca na vitrine do óbvio. Por isso é tão difícil recusá-lo: quem recusa parece estar recusando o bem. Dizer não ao ar do século soa, aos ouvidos do século, como dizer não à vida — quando é exatamente o contrário.

Porque é uma corrente, e isso muda tudo. Voltemos por um momento à água. A diferença entre o ar e a água, para o nadador, é que a água tem direção. Há uma correnteza, e ela puxa. O que o cristão precisa entender — e o que o século inteiro foi treinado para não entender — é que o espírito deste mundo não é um lago parado em que cada um nada para onde quer. É um rio com sentido próprio, e o sentido dele não é neutro. Tudo nele empurra para um lado: para o acúmulo e contra a entrega, para o eu e contra o próximo, para a aparência e contra a verdade, para o agora e contra a eternidade. Você pode até imaginar que está parado, flutuando tranquilo. Mas se você simplesmente boia, sem fazer força, está se movendo — e está se movendo para onde a corrente vai. A neutralidade é uma ilusão de quem não percebe a água. No rio do século, não fazer nada já é ir embora rio abaixo.

Daí Paulo dizer que esse espírito "opera nos filhos da desobediência". A palavra é operar — energeō, no grego, a mesma raiz da nossa "energia". Não é uma força que paira distante, observando de longe. É uma energia que trabalha por dentro, que aciona, que move de dentro para fora. O espírito deste mundo não governa principalmente de fora, com leis e ameaças; ele governa de dentro, com desejos. Ele não precisa te acorrentar a uma vontade que você odeia; é muito mais eficiente fazer você querer o que ele quer. Quando a corrente já está dentro do peito, ninguém precisa empurrar de fora. Você nada por conta própria — só que para o lado que ele escolheu. Esse é o cativeiro mais perfeito que existe: o do prisioneiro que ama a sua cela e chama de liberdade.

E há ainda uma camada que torna a corrente quase irresistível: ela é coletiva. Você não a enfrenta sozinho contra um inimigo abstrato; você a enfrenta contra todos ao redor, que nadam para o mesmo lado e tomam esse lado como o único possível. O espírito do século governa pela multidão. Ele se serve daquilo que há de mais profundo no coração humano — o desejo de pertencer, o medo de ficar de fora, a necessidade de ser aprovado pelos que nos cercam. Quando todos correm numa direção, correr nessa direção deixa de parecer escolha e passa a parecer instinto. Quem para no meio da correnteza não sente apenas o peso da água; sente o olhar dos outros, o estranhamento, a pergunta muda de quem não entende por que ele simplesmente não se deixa levar como o resto. Foi assim em todas as eras. A multidão que gritou "crucifica-o" não era composta só de homens maus; era composta, em boa parte, de gente comum, arrastada por uma corrente coletiva que naquele instante parecia a própria voz da razão e da justiça. A maioria nem sempre erra, mas a maioria nunca é prova de nada. O número dos que respiram o mesmo ar não torna o ar mais puro.

E aqui chegamos ao ponto em que a Palavra de Jesus desmonta toda essa engenharia invisível. Na última noite, na intimidade da ceia, sabendo de tudo que viria, o Senhor disse aos seus: "Já não falarei muito convosco, porque se aproxima o príncipe deste mundo, e nada tem em mim" (João 14:30). Pare nessas quatro palavras: nada tem em mim. O príncipe da potestade do ar vinha, e vinha com toda a sua corrente, com todo o seu peso de século, com toda a sua força de mentira ambientada. E não encontrou em Jesus nenhum ponto de apoio. Nenhuma alavanca. Nenhuma cumplicidade secreta. O ar do mundo entra em nós porque há, dentro de nós, algo que ressoa com ele — uma vaidade que responde ao chamado da vaidade, um medo que se reconhece no medo coletivo, um apetite que dá a mão ao apetite do século. Em Jesus não havia nada disso. A corrente chegou ao homem que não tinha dentro de si o leito por onde ela costuma correr. E parou. Bateu na rocha e não passou.

Isso é mais do que uma curiosidade teológica sobre a impecabilidade de Cristo. É o anúncio de que a corrente pode ser quebrada. Por séculos os homens acharam que o curso deste mundo era a água em que todo peixe nada, a lei inescapável da existência, o jeito como as coisas simplesmente são. E então veio um homem em quem o príncipe deste mundo nada teve, e ficou provado, diante do universo, que existe um modo de estar no mundo sem ser do mundo, de andar dentro da água sem ser levado pela correnteza. Não como exceção mágica reservada a Deus, mas como porta aberta para todos os que estão nele. O que Jesus fez no deserto e na cruz, ele faz no batizado: cava nele um novo leito, abre nele uma nascente que corre para o lado contrário (João 7:38). E quem tem dentro de si essa outra corrente já não é arrastado tão facilmente pela primeira.

A segunda palavra é ainda mais decisiva, e Jesus a pronuncia no mesmo discurso de despedida. Falando do que o Espírito convenceria o mundo, ele diz: "do juízo, porque já o príncipe deste mundo está julgado" (João 16:11). Está julgado. O verbo está no passado, mas o sentido é eterno: a sentença já foi dada. O príncipe da potestade do ar ainda tem voz, ainda tem corrente, ainda sopra sobre os filhos da desobediência — mas é um governante deposto que ainda não foi removido do palácio. É um rei cuja condenação já está escrita, e que governa apenas no curto intervalo entre a sentença e a execução. Toda a sua majestade aparente é a majestade de quem já perdeu. A moda deste mundo desfila com pompa, mas desfila a caminho do cadafalso. E quem sabe disso olha para a passarela do século com outros olhos — não com o terror de quem encara o invencível, mas com a serenidade de quem reconhece um morto que ainda não se deu conta de que morreu.

Mas é preciso ser honesto sobre o custo dessa liberdade, porque ela tem um custo, e ele é estranho. O custo de nadar contra a corrente não é principalmente o esforço — é a solidão da percepção. Quando você começa a sentir a água, quando enfim nota que existe uma direção empurrando todo mundo, você passa a ver o que os outros não veem, e isso o separa. O peixe que percebe a correnteza torna-se, de certa forma, um estrangeiro entre os peixes. Os que boiam não entendem por que ele se cansa; para eles, ele está fazendo força à toa, complicando o que era simples, criando problema onde não havia. Resistir ao óbvio é sempre passar por louco aos olhos de quem nunca questionou o óbvio. E há dias em que a corrente parece tão grande, e a força de um só nadador tão pequena, que a tentação não é nem desobedecer a Deus de propósito — é apenas cansar, e deixar de remar, e voltar a boiar, dizendo a si mesmo que não está indo a lugar nenhum, quando na verdade está sendo levado.

Por isso a liberdade do Reino nunca foi a liberdade de não ter corrente alguma; é a liberdade de ter outra corrente dentro. Ninguém vence o rio do século a pura força de vontade, contando braçadas e cerrando os dentes. A vontade, sozinha, cansa, e a corrente nunca cansa. O que muda o nadador não é apenas esforço; é uma nova natureza, um novo desejo plantado por dentro, o tal espírito que opera — agora a favor — nos filhos da obediência. Jesus não nos chamou para passar a vida lutando exaustos contra a água com músculos que são nossos. Ele nos chamou a habitar nele, que é a outra corrente, a nascente que jorra para a vida eterna. Permanecer nele é deixar que outra água nos atravesse, mais forte que a do século, correndo no sentido contrário. Não é heroísmo de um peixe teimoso; é a entrega de quem se deixa carregar pelo rio certo.

E o que tudo isso pede de você, leitor, hoje, na vida concreta que você vai retomar quando fechar este livro? Pede, antes de qualquer mudança de comportamento, uma mudança de percepção. Pede que você comece a fazer ao seu dia a pergunta que o peixe nunca faz: o que é esta água? O que estou respirando sem perceber? Que valores entraram em mim como o ar entra, sem que eu jamais os tenha examinado e dito sim? Por que me parece tão evidente que preciso de mais, que preciso aparecer, que preciso vencer, que preciso me proteger primeiro? De onde veio essa evidência? Quando foi que eu concordei com ela? Essas perguntas parecem pequenas, mas são o começo de toda libertação. Porque, enquanto a corrente for invisível, ela é absoluta. No instante em que você a vê, ela já não é mais o seu mundo inteiro — passou a ser apenas uma força, entre outras, à qual você pode dizer não.

Há um exercício antigo e simples que ajuda a perceber a água, e a Escritura o pratica em toda parte: a interrupção. O peixe nunca para; o discípulo precisa parar. Quando você se cala diante de Deus, quando recolhe os olhos do que todos olham e os ouvidos do que todos ouvem, quando reserva um pedaço do dia para o silêncio e para a Palavra, você não está fugindo do mundo — está saindo da água por um instante para enfim sentir que estava molhado. É no silêncio que a corrente se denuncia. De repente você percebe a pressa que carregava sem motivo, a comparação que vinha te corroendo por baixo, o medo que ditava decisões que você jurava serem racionais. Não é à toa que o século tem tanta pressa de preencher cada vão de silêncio com algum ruído. O ruído é o aliado da corrente, porque mantém o peixe distraído demais para perguntar o que é a água. Quem aprende a se calar diante de Deus aprende, aos poucos, a ouvir o som da correnteza — e o que se ouve, deixa de governar às escondidas.

E há um segundo exercício, tão antigo quanto: a comunhão dos que nadam contra. Se a corrente é coletiva, a resistência também precisa ser. Nenhum nadador atravessa um rio sozinho por muito tempo; cansa, desanima, e a água o convence de que era loucura tentar. Por isso Cristo não chamou indivíduos soltos, mas um corpo, um povo, uma família de estrangeiros que se reconhecem uns aos outros precisamente por não nadarem para onde a multidão nada. Estar entre irmãos que percebem a mesma corrente é respirar, por algumas horas, um outro ar — e voltar para o meio do rio lembrando que não se está louco, que existe de fato uma direção contrária, e que vale a pena. O século isola, porque o peixe sozinho é mais fácil de levar. O Reino reúne, porque juntos é que se rema.

Não se trata de fugir da água. O peixe não vive fora dela, e o cristão não foi chamado a deixar o mundo — Jesus mesmo orou que o Pai não nos tirasse do mundo, mas que nos guardasse do mal (João 17:15). Trata-se de viver dentro da corrente sem ser dela; de respirar o ar do século sabendo que há um Espírito mais antigo e mais forte que aquele que opera na potestade do ar; de boiar sem deixar de remar. Trata-se de notar, ao longo do dia, o leve puxão que insiste em te levar para o lado do acúmulo, da inveja, da pressa, do medo — e, ao notá-lo, recusá-lo com uma decisão que só é possível depois que se percebeu a água.

Que esta seja, então, a renovação do seu entendimento neste capítulo: aprender a sentir a corrente. Não basta querer ser diferente; é preciso primeiro enxergar o que nos torna todos iguais, esse ar comum que respiramos sem reparar. O príncipe da potestade do ar já está julgado, e nada tem no Cristo em quem você foi escondido. A sentença dele está dada; a sua liberdade está garantida na cruz. Falta apenas você abrir os olhos debaixo d'água e descobrir, com espanto e com gratidão, que aquilo que você sempre tomou por o mundo inteiro era só um rio — e que, pela graça, dá para nadar contra a corrente. Dá, sim. Mas só quem percebe a corrente.

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