A Moda Deste Mundo · Capítulo 0

Introdução — A moda invisível

Há uma roupa que todos vestimos sem nunca tê-la escolhido. Ninguém nos entregou um catálogo, ninguém nos pediu a medida, ninguém nos perguntou se gostávamos do corte. E, no entanto, ao acordarmos para a vida adulta, já a estávamos usando — ajustada ao corpo, costurada à pele, tão nossa que não a sentíamos mais. É a roupa do nosso tempo. É a moda deste mundo. E a primeira coisa a entender sobre ela é justamente esta: ela é invisível para quem a veste.

Falamos de moda no sentido em que a Escritura fala. Quando o apóstolo Paulo escreveu "E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento" (Romanos 12:2), ele usou uma palavra grega — syschēmatizō — que carrega exatamente a imagem de quem veste o mesmo figurino. Não vos amoldeis ao traje da época. Não deixeis que o século vos dê a forma como uma fôrma dá forma à massa. Por trás da palavra "mundo" está outro termo grego, aiōn — não tanto o planeta, mas a era, o século, o espírito do tempo, o conjunto de valores que uma geração respira como se fosse o próprio ar. A moda deste mundo, portanto, não é uma questão de tecido. É uma questão de alma.

E por que dizemos que ela é invisível? Porque o ar não se vê. Um peixe não sabe que está molhado; a água é o seu mundo inteiro, a condição de tudo o que ele conhece, e por isso mesmo ele nunca a percebe como uma coisa entre outras. Assim somos nós com o espírito do nosso século. Os valores que ele nos vende não chegam anunciados como ideologia; chegam disfarçados de bom senso. Não nos dizem "creia nisto"; sussurram "é óbvio que é assim". A moda do mundo nunca se apresenta como uma escolha entre muitas. Ela se apresenta como a realidade. Como o jeito normal de viver. Como aquilo que qualquer pessoa sensata desejaria.

Repare como ela trabalha. Ela nos ensina, desde cedo, que valer mais é ter mais — e o aprendemos sem nunca termos sentado numa aula. Ela nos convence de que a vitrine que nunca se esgota, o feed que nunca termina, a corrida que nunca chega, são apenas a textura natural da existência. Ela transforma a ansiedade do acúmulo em virtude e chama isso de ambição. Ela eleva a aparência acima da essência e chama isso de realismo. Ela coroa quem sobe sobre os outros e chama isso de sucesso. Ela sussurra, em mil tons diferentes, a mesma e antiga lei: salve-se quem puder. E faz tudo isso tão de mansinho, tão dentro da nossa pele, que confundimos a voz do século com a nossa própria voz.

A Escritura, porém, ousa nomear o que está por trás dessa costura. Fala de um "deus deste século" que "cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho" (2 Coríntios 4:4). Não para nos amedrontar, mas para nos abrir os olhos. Porque a cegueira tem esta crueldade peculiar: o cego não sabe que está no escuro. Ele acha que aquilo é toda a luz que existe. E o primeiro milagre, sempre, é descobrir que havia mais.

É exatamente isso que este livro pretende ser. E é importante dizer o que ele não é. Não é um manual. Não é uma lista de regras, um código de condutas, um inventário de coisas a fazer e a evitar para se tornar um cristão respeitável aos olhos dos homens. O mundo já tem manuais demais, e a religião sem vida produz os seus próprios. Este livro é outra coisa. Quer ser um espelho — e, mais do que um espelho comum, um espelho profético. Um espelho não nos diz o que devemos fazer; ele nos mostra o que somos. E o espelho profético tem a coragem de mostrar também o que não queríamos ver: o figurino do século que vestimos sem perceber, a maquiagem do tempo que confundimos com o nosso rosto verdadeiro.

Porque há um perigo em transformar a fé num manual de fachada. Pode-se trocar de roupa por fora e continuar com a mesma alma por dentro. Pode-se aprender os gestos certos, o vocabulário certo, a aparência certa, e permanecer, no íntimo, perfeitamente conformado ao molde do mundo. Por isso Paulo não diz "comportai-vos melhor". Ele diz "transformai-vos pela renovação do vosso entendimento". A palavra que ele escolhe para "transformar" é metamorphoō — a mesma raiz de metamorfose, a mudança que vem de dentro, como a da semente que se torna árvore, como a da lagarta que se faz outra criatura. O contrário do conformismo não é a rebeldia barulhenta. É a transformação silenciosa que começa na mente e se espalha pela vida inteira.

E aqui está o método deste livro, o pacto que faço com você que o abre. Em cada capítulo, tomarei um valor que o século celebra — um daqueles que parecem óbvios, naturais, indiscutíveis — e o colocarei diante de uma palavra de Jesus. Não diante da minha opinião. Não diante de uma teoria minha sobre o mundo. Diante da palavra Daquele que disse "Eu sou a luz do mundo" (João 8:12) e cujas palavras, prometeu Ele, não hão de passar (Mateus 24:35). Veremos a riqueza que o mundo idolatra encontrar o Mestre que diz "não podeis servir a Deus e a Mamom". Veremos o status que o mundo persegue cruzar com o Filho do Homem que "não veio para ser servido, mas para servir". Veremos a autopreservação, lei suprema do século, esbarrar naquele que ensinou que "quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á". Em cada encontro, algo se desmonta. Um valor do mundo, posto sob a luz do Reino, revela-se outra coisa do que parecia.

Não escrevo isto como quem está de fora, apontando o dedo. Escrevo como alguém que também vestiu o figurino e está, dia após dia, aprendendo a tirá-lo. A moda do mundo não se confronta de longe, com superioridade. Confronta-se de joelhos, com honestidade. Por isso o convite deste livro não é para que você condene os outros, mas para que examine a si mesmo — e descubra, talvez com surpresa, quanto do século ainda corre por dentro de você sem que você tivesse notado.

Se em algum momento estas páginas o confrontarem, peço que não fuja do desconforto cedo demais. O desconforto, aqui, é amigo. É o sinal de que a luz alcançou um canto que estava no escuro. Mas peço também que não se detenha no confronto, porque ele não é o destino. O destino é a liberdade. Há uma alegria profunda do outro lado dessa renovação — a alegria de quem deixa de ser arrastado pela correnteza e descobre que pode ficar de pé. A alegria de viver, como dizia a antiga imagem dos discípulos, dentro do século sem pertencer ao século; de estar no mundo como quem mora numa cidade de passagem, sabendo que "passa a aparência deste mundo" (1 Coríntios 7:31) e que existe um Reino que permanece.

Convido você, então, a uma única coisa ao longo destas páginas: a deixar que o entendimento seja renovado. Não a mudar de roupa por fora. A mudar de dentro para fora. A permitir que a palavra de Jesus desça mais fundo do que os hábitos da mente, e ali, na raiz silenciosa onde nascem os nossos desejos e os nossos medos, comece a obra paciente da transformação. Porque a moda deste mundo é invisível — mas a luz que a revela é mais antiga e mais forte do que ela. E o primeiro ato de quem deixa de se conformar é, simplesmente, abrir os olhos.

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