1Respondeu mais Elihu e disse:
2Tens por direito dizeres: Maior é a minha justiça do que a de Deus?
3Porque disseste: De que te serviria elle? ou de que mais me aproveitarei do que do meu peccado?
4Eu te farei resposta, a ti e aos teus amigos comtigo.
5Attenta para os céus, e vê; e contempla as mais altas nuvens, que são mais altas do que tu
6Se peccares, que effectuarás contra elle? se as tuas transgressões se multiplicarem, que lhe farás.
7Se fôres justo, que lhe darás? ou que receberá da tua mão?
8A tua impiedade damnaria outro tal como tu; e a tua justiça aproveitaria ao filho do homem.
9Por causa da grandeza da oppressão fazem clamar aos opprimidos: exclamam por causa do braço dos grandes.
10Porém ninguem diz: Onde está Deus que me fez, que dá psalmos na noite.
11Que nos faz mais doutos do que os animaes da terra, e nos faz mais sabios do que as aves dos céus.
12Ali clamam, porém elle não responde, por causa da arrogancia dos maus.
13Certo é que Deus não ouvirá a vaidade, nem attentará para ella o Todo-poderoso.
14E quanto ao que disseste, que o não verás: juizo ha perante elle; por isso espera n'elle.
15Mas agora, ainda que a ninguem a sua ira visitasse, nem advertisse muito na multidão dos peccadores:
16Logo Job em vão abriu a sua bocca, e sem sciencia multiplicou palavras.
📖 Estudo do capítulo
Resumo
Eliú questiona a afirmação de Jó de que sua justiça pessoal seria maior que a de Deus, argumentando que nem o pecado humano diminui a Deus, nem a justiça humana O beneficia — ambos afetam apenas outras pessoas. Ele sugere que Jó clama, mas não recebe resposta porque não busca a Deus com humildade genuína.
Explicação
Eliú apresenta aqui um argumento teológico importante sobre a transcendência de Deus: Ele não é diminuído pelo pecado humano nem engrandecido pela virtude humana, pois é completamente autossuficiente e além da necessidade de aprovação ou contribuição humana. Sua sugestão de que os clamores de Jó não são respondidos por causa de "arrogância dos maus" (verso 12) é uma acusação implícita e não totalmente justa, já que o próprio Deus mais adiante no livro não condena Jó dessa forma específica. Aplicação de hoje: a bondade ou o pecado humano têm consequências reais para outras pessoas e para si mesmo, mas não alteram a natureza essencial e a grandeza de Deus.
Curiosidades
- A observação de que Deus nos faz "mais doutos do que os animais da terra" e "mais sábios do que as aves dos céus" (verso 11) reconhece a capacidade racional distintiva do ser humano como um dom divino específico, tema que ecoa a narrativa da criação em Gênesis 1:26-28.
- Este é um dos discursos mais curtos de Eliú, funcionando como uma ponte entre os argumentos mais elaborados dos capítulos 34 e 36, mantendo o tom de repreensão respeitosa, porém firme, direcionado a Jó.