Mateus 27

BLIVRE · Capítulo 27/28

1Vinda a manhã, todos os chefes dos sacerdotes e anciãos do povo juntamente se aconselharam contra Jesus, para o matarem.

2E o levaram amarrado, e o entregaram a Pôncio Pilatos, o governador.

3Então Judas, o que o havia traído, ao ver que [Jesus] já estava condenado, devolveu, sentindo remorso, as trinta [moedas] de prata aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos;

4e disse: Pequei, traindo sangue inocente. Porém eles disseram: Que nos interessa? Isso é problema teu!

5Então ele lançou as [moedas] de prata no templo, saiu, e foi enforcar-se.

6Os chefes dos sacerdotes tomaram as [moedas] de prata, e disseram: Não é lícito pô-las no tesouro das ofertas, pois isto é preço de sangue.

7Então juntamente se aconselharam, e compraram com elas o campo do oleiro, para ser cemitério dos estrangeiros.

8Por isso aquele campo tem sido chamado campo de sangue até hoje.

9Assim se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias, que disse: Tomaram as trinta [moedas] de prata, preço avaliado pelos filhos de Israel, o qual eles avaliaram;

10e as deram pelo campo do oleiro, conforme o que o Senhor me mandou.

11Jesus esteve diante do governador, e o governador lhe perguntou: És tu o Rei dos Judeus? E Jesus lhe respondeu: Tu [o] dizes.

12E, sendo ele foi acusado pelos chefes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu.

13Pilatos, então, lhe disse: Não ouves quantas coisas estão testemunhando contra ti?

14Mas [Jesus] não lhe respondeu uma só palavra, de maneira que o governador ficou muito maravilhado.

15Na festa o governador costuma soltar um preso ao povo, qualquer um que quisessem.

16E tinham então um preso bem conhecido, chamado Barrabás.

17Quando, pois, se ajuntaram, Pilatos lhes perguntou: Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, que é chamado Cristo?

18Pois ele sabia que foi por inveja que o entregaram.

19E, enquanto ele estava sentado no assento de juiz, sua mulher lhe enviou a seguinte mensagem: Nada [faças] com aquele justo, pois hoje sofri muito em sonhos por causa dele.

20Mas os chefes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram as multidões a pedirem Barrabás, e a exigirem a morte de Jesus.

21O governador lhes perguntou: Qual destes dois quereis que vos solte? E responderam: Barrabás!

22Pilatos lhes disse: Que, pois, farei de Jesus, que é chamado Cristo? Todos lhe disseram: Seja crucificado!

23E o governador perguntou: Ora, que mal ele fez? Porém gritavam mais: Seja crucificado!

24Quando, pois, Pilatos viu que nada adiantava, em vez disso se fazia mais tumulto, ele pegou água, lavou as mãos diante da multidão, e disse: Estou inocente do sangue deste justo. A responsabilidade é vossa.

25E todo o povo respondeu: O sangue dele [venha] sobre nós, e sobre os nossos filhos.

26Então soltou-lhes Barrabás, enquanto que mandou açoitar Jesus, e o entregou para ser crucificado.

27Em seguida, os soldados do governador levaram Jesus consigo ao pretório, ajuntaram-se a ele toda a unidade miltar.

28Eles o despiram e o cobriram com um manto vermelho.

29E, depois de tecerem uma coroa de espinhos, puseram-na sobre a sua cabeça, e uma cana em sua mão direita. Em seguida, puseram-se de joelhos diante dele, zombando-o, e diziam: Felicitações, Rei dos Judeus!

30E cuspiram nele, tomaram a cana, e deram-lhe golpes na cabeça.

31Depois de terem o zombado, despiram-lhe a capa, vestiram-no com suas roupas, e o levaram para crucificar.

32Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, por nome Simão; e obrigaram-no a levar sua cruz.

33E quando chegaram ao lugar chamado Gólgota, que significa “o lugar da caveira”,

34deram-lhe de beber vinagre misturado com fel. E, depois de provar, não quis beber.

35E havendo-o crucificado, repartiram suas roupas, lançando sortes; para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta: Repartiram entre si minhas roupas, e sobre minha túnica lançaram sortes.

36Então se sentaram, e ali o vigiavam.

37E puseram, por cima de sua cabeça, sua acusação escrita: ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS.

38Então foram crucificados com ele dois criminosos, um à direita, e outro à esquerda.

39Os que passavam blasfemavam dele, balançando suas cabeças,

40e dizendo: Tu, que derrubas o Templo, e em três dias o reconstróis, salva a ti mesmo! Se és Filho de Deus, desce da cruz.

41E da mesma maneira também os chefes dos sacerdotes, com os escribas e os anciãos, escarnecendo [dele] ,diziam:

42Salvou outros, a si mesmo não pode salvar. Se é Rei de Israel, desça agora da cruz, e creremos nele.

43Confiou em Deus, livre-o agora, se lhe quer bem; pois disse: “Sou Filho de Deus”.

44E os ladrões que estavam crucificados com ele também lhe insultavam.

45Desde a hora sexta houve trevas sobre toda a terra até a hora nona.

46E perto da hora nona, Jesus gritou em alta voz: Eli, Eli, lamá sabactâni?, Isto é: Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?

47E alguns dos que ali estavam, quando ouviram, disseram: Ele está chamando Elias.

48Logo um deles correu e tomou uma esponja. Então a encheu de vinagre, colocou-a em uma cana, e lhe dava de beber.

49Porém os outros disseram: Deixa, vejamos se Elias vem livrá-lo.

50Jesus gritou outra vez em alta voz, e entregou o espírito.

51E eis que o véu do Templo se rasgou em dois, de cima até embaixo, a terra tremeu, e as pedras se fenderam.

52Os sepulcros se abriram, e muitos corpos de santos que tinham morrido foram ressuscitados.

53E, depois de ressuscitarem, saíram dos sepulcros, vieram à santa cidade, e apareceram a muitos.

54E o centurião, e os que com ele vigiavam Jesus, ao verem o terremoto e as coisas que haviam sucedido, tiveram muito medo, e disseram: Verdadeiramente ele era Filho de Deus.

55Muitas mulheres, que desde a Galileia haviam seguido Jesus, e o serviam, estavam ali, olhando de longe.

56Entre elas estavam Maria Madalena, e Maria mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.

57E chegado o entardecer, veio um homem rico de Arimateia, por nome José, que também era discípulo de Jesus.

58Ele chegou a Pilatos, e pediu o corpo de Jesus. Então Pilatos mandou que o corpo [lhe] fosse entregue.

59José tomou o corpo, e o envolveu em um lençol limpo, de linho fino,

60e o pôs em seu sepulcro novo, que tinha escavado numa rocha; em seguida rolou uma grande pedra à porta do sepulcro, e foi embora.

61E ali estavam Maria Madalena e a outra Maria, sentadas de frente ao sepulcro.

62No dia seguinte, que é o depois da preparação, os chefes dos sacerdotes, e os fariseus se reuniram com Pilatos,

63e disseram: Senhor, nos lembramos que aquele enganador, enquanto ainda vivia, disse: “Depois de três dias serei ressuscitado”.

64Portanto, manda que o sepulcro esteja em segurança até o terceiro dia, para que não aconteça dos seus discípulos virem de noite, e o furtem, e digam ao povo que ele ressuscitou dos mortos; e [assim] o último engano será pior que o primeiro.

65Pilatos lhes disse: Vós tendes uma guarda. Ide fazer segurança como o entendeis.

66E eles se foram, e fizeram segurança no sepulcro com a guarda, selando a pedra.

📖 Estudo do capítulo

Resumo

Jesus é levado a Pilatos, que o entrega para ser crucificado após a multidão pedir a libertação de Barrabás; Judas se enforca de remorso, Jesus morre na cruz em meio a zombarias, e é sepultado por José de Arimateia num túmulo guardado por soldados.

Explicação

Pilatos, prefeito romano da Judeia, tinha autoridade para aplicar a pena de morte, algo que o Sinédrio judeu não podia fazer sozinho sob o domínio romano, por isso Jesus precisou ser levado a ele. O costume de libertar um preso na Páscoa, embora não documentado fora dos evangelhos, era coerente com práticas romanas de conceder favores para manter a paz em províncias durante festividades religiosas importantes. Detalhes como o véu do templo se rasgando ao meio, de cima para baixo, simbolizam o fim da separação entre Deus e as pessoas antes mantida pelo acesso restrito ao Lugar Santíssimo. A morte de Jesus é narrada com sobriedade, sem sensacionalismo, mas com sinais que os próprios espectadores, incluindo um centurião romano, interpretaram como confirmação de que ele realmente era o Filho de Deus.

Curiosidades

  • 'Gólgota', o local da crucifixão, significa 'lugar da caveira' em aramaico, possivelmente por causa do formato de uma colina próxima aos muros de Jerusalém.
  • A prática romana de crucificação era reservada geralmente a escravos, revoltosos e não-cidadãos, sendo considerada uma das formas mais degradantes e dolorosas de execução no mundo antigo.

Explicação versículo a versículo

  1. Mateus 27:1O conselho formal pela manhã dá uma aparência de legalidade a uma decisão que, segundo o relato, já tinha sido tomada durante a noite — os judeus não tinham autoridade para executar ninguém, por isso o passo seguinte é levar Jesus a Pilatos.
  2. Mateus 27:2A palavra traduzida aqui como 'presidente' é o governador romano da província da Judeia — o cargo seria mais próximo de 'procurador' ou 'prefeito', o representante direto de Roma com poder de vida e morte sobre a região. Os líderes judeus entregam Jesus a ele porque, sob a ocupação romana, o conselho judaico não tinha autoridade para executar ninguém por conta própria.
  3. Mateus 27:3O arrependimento de Judas acontece só depois de ver a condenação já decidida — sugere que ele talvez não esperasse que a traição levasse realmente à morte de Jesus.
  4. Mateus 27:4A resposta fria dos sacerdotes, 'que nos importa? isso é contigo', mostra que eles usaram Judas apenas como instrumento, sem qualquer interesse real no bem-estar ou na consciência dele depois.
  5. Mateus 27:5Devolver o dinheiro dentro do templo era um gesto de rejeição total daquilo que ele tinha ganhado — o suicídio de Judas é o único registrado no Novo Testamento entre os discípulos próximos de Jesus.
  6. Mateus 27:6A hesitação dos sacerdotes em colocar 'preço de sangue' no tesouro do templo mostra uma preocupação com pureza ritual que contrasta com a disposição deles de pagar por uma traição que levaria à morte de um inocente.
  7. Mateus 27:7Comprar um campo de oleiro, provavelmente terra já esgotada pela extração de argila e sem valor agrícola, era uma forma prática e barata de usar o dinheiro sem tecnicamente devolvê-lo ao tesouro sagrado.
  8. Mateus 27:8'Até ao dia de hoje' indica que o nome do campo já era conhecido e usado pelos leitores originais do evangelho, décadas depois do evento em si.
  9. Mateus 27:9A citação combinada de Jeremias e Zacarias sobre as trinta moedas de prata é atribuída só a Jeremias por Mateus, uma prática comum na época de citar pelo profeta mais conhecido mesmo quando o texto vinha de mais de uma fonte.
  10. Mateus 27:10Fecha a citação profética aplicando diretamente a compra do campo à mesma soma de dinheiro entregue a Judas — Mateus vê nesse detalhe aparentemente pequeno o cumprimento de uma profecia antiga.
  11. Mateus 27:11'Rei dos judeus' era a acusação política que interessava a Pilatos, diferente da acusação religiosa de blasfêmia que tinha motivado o julgamento perante Caifás — só uma ameaça ao poder de Roma justificaria a pena de morte sob autoridade romana.
  12. Mateus 27:12O silêncio de Jesus diante das acusações formais ecoa a mesma postura já vista no julgamento religioso, e cumpre uma imagem profética de Isaías 53 sobre um servo que não abre a boca diante da injustiça.
  13. Mateus 27:13Pilatos tenta provocar uma resposta de defesa, talvez esperando algum argumento que justificasse absolvê-lo mais facilmente diante da pressão dos acusadores.
  14. Mateus 27:14O espanto de Pilatos com o silêncio de Jesus sugere que ele não estava acostumado a esse tipo de comportamento de réus, que normalmente se defendiam ativamente diante de acusações capazes de levar à morte.
  15. Mateus 27:15Não há registro fora dos evangelhos desse costume específico de soltar um prisioneiro na Páscoa, mas práticas parecidas de anistia em datas festivas existiam em outras partes do império romano. Esse costume dá a Pilatos uma saída aparente para livrar Jesus sem parecer estar cedendo à pressão da multidão — saída que acaba não funcionando.
  16. Mateus 27:16Barrabás é descrito em outros evangelhos como um insurgente envolvido em motim e homicídio contra o governo romano — a escolha entre ele e Jesus apresenta um contraste direto entre um revolucionário violento e alguém acusado, mas sem crime comprovado.
  17. Mateus 27:17Oferecer a escolha entre Barrabás e Jesus pode ter sido uma tentativa de Pilatos de livrar Jesus através da tradição de anistia, esperando que a multidão preferisse alguém sem crimes violentos comprovados.
  18. Mateus 27:18Pilatos já reconhece que a acusação contra Jesus vinha de inveja dos líderes religiosos, não de um crime real — um detalhe que expõe a injustiça do processo mesmo antes do veredicto final.
  19. Mateus 27:19A mensagem da esposa de Pilatos, baseada num sonho perturbador, é um detalhe único registrado só por Mateus — mais uma voz alertando sobre a inocência de Jesus, dessa vez vinda de dentro da própria residência do governador.
  20. Mateus 27:20Os líderes religiosos trabalham ativamente para influenciar a multidão a pedir Barrabás, mostrando que a decisão popular não foi espontânea, mas resultado de manipulação deliberada.
  21. Mateus 27:21Pilatos repete a pergunta, dando à multidão a chance de escolher — mas a pressão já exercida pelos líderes religiosos torna o resultado praticamente decidido de antemão.
  22. Mateus 27:22A pergunta de Pilatos sobre o que fazer com Jesus recebe uma resposta unânime e imediata pedindo a crucificação — a decisão da multidão já parece consolidada, sem espaço para outra alternativa.
  23. Mateus 27:23A pergunta de Pilatos sobre qual crime Jesus tinha cometido não recebe resposta direta — a multidão simplesmente intensifica o pedido de crucificação, sem justificar a acusação com fatos concretos.
  24. Mateus 27:24Lavar as mãos era um gesto simbólico de origem judaica, associado a inocência diante de sangue derramado injustamente — Pilatos usa esse gesto para tentar transferir a responsabilidade pela decisão para a multidão.
  25. Mateus 27:25A resposta do povo, aceitando a responsabilidade sobre si e sobre os próprios filhos, tem sido historicamente usada de forma trágica para justificar perseguição antissemita — uma leitura que ignora o contexto de uma multidão específica, não de todo o povo judeu de todas as épocas.
  26. Mateus 27:26A flagelação romana era feita com um chicote de tiras de couro com pedaços de osso ou metal amarrados na ponta, usado antes da crucificação para enfraquecer o condenado — muita gente morria só com esse castigo. Era um procedimento padrão do processo romano: praticamente ninguém ia à cruz sem passar primeiro por ele.
  27. Mateus 27:27'Cohorte' era uma unidade militar romana de várias centenas de soldados — reunir esse número inteiro em torno de Jesus mostra o tipo de espetáculo público e organizado que a zombaria seguinte se tornaria.
  28. Mateus 27:28A capa de escarlate, provavelmente um manto militar vermelho usado por soldados romanos, imita de forma zombeteira as vestes reais que um verdadeiro rei usaria.
  29. Mateus 27:29A coroa de espinhos e a cana como cetro completam a zombaria da realeza de Jesus, transformando os próprios símbolos de honra régia em instrumentos de humilhação e dor física.
  30. Mateus 27:30Bater na cabeça com a mesma cana que tinha sido colocada como cetro fingido intensifica a crueldade da zombaria, unindo humilhação simbólica a dor física real.
  31. Mateus 27:31Vestir Jesus de volta com as próprias roupas, depois de toda a zombaria, prepara a cena para a crucificação pública, onde ele seria reconhecido pela aparência normal, não pela fantasia usada durante a tortura.
  32. Mateus 27:32Soldados romanos tinham o direito legal de obrigar qualquer pessoa a carregar uma carga por eles — foi esse mesmo direito que forçou Simão, que provavelmente só estava passando pela estrada, a carregar a cruz de Jesus. O condenado normalmente carregava a própria cruz até o local da execução, e Jesus, depois da flagelação, não tinha mais forças para isso.
  33. Mateus 27:33Gólgota, 'Lugar da Caveira', ficava provavelmente fora dos muros de Jerusalém, à beira de uma estrada movimentada — locais de crucificação eram escolhidos de propósito em lugares visíveis, para servir de aviso público.
  34. Mateus 27:34Essa bebida amarga funcionava como uma espécie de sedativo rudimentar, oferecido por misericórdia para amenizar a dor de quem ia ser crucificado — outros relatos do mesmo episódio descrevem algo parecido, com vinho misturado a mirra. Jesus prova e recusa, parecendo escolher enfrentar o sofrimento plenamente consciente, em vez de amortecido.
  35. Mateus 27:35Repartir as roupas por sorteio era um costume comum entre soldados romanos, que tinham direito aos pertences pessoais de quem executavam — o detalhe cumpre uma citação direta do Salmo 22.
  36. Mateus 27:36Os soldados permanecem montando guarda durante a crucificação, uma prática padrão para garantir que ninguém tentasse resgatar o condenado antes da morte confirmada.
  37. Mateus 27:37A inscrição acima da cabeça, com a acusação formal, era prática romana comum em execuções — servia tanto de aviso público quanto de justificativa legal exibida abertamente para quem passasse.
  38. Mateus 27:38Crucificar Jesus entre dois criminosos comuns, um de cada lado, pode ecoar outra citação profética de Isaías sobre o servo sofredor contado entre os transgressores.
  39. Mateus 27:39'Meneando as cabeças' era um gesto de escárnio e desprezo, também usado em salmos do Antigo Testamento para descrever zombaria contra alguém em sofrimento.
  40. Mateus 27:40A zombaria repete a acusação distorcida sobre destruir o templo, já ouvida no julgamento — os que passam desafiam Jesus a provar a própria identidade divina descendo da cruz, algo que ele escolhe não fazer.
  41. Mateus 27:41Os mesmos grupos que já tinham conspirado para prender e condenar Jesus — sacerdotes, escribas, anciãos, e agora também fariseus — se unem na zombaria pública, mostrando a extensão da hostilidade contra ele.
  42. Mateus 27:42A lógica da zombaria é cruelmente simples: eles prometem crer se ele descer da cruz, mas a própria missão de Jesus, segundo o evangelho, dependia justamente de ele não descer e completar o sacrifício.
  43. Mateus 27:43A zombaria cita quase diretamente o Salmo 22, um salmo que Jesus mesmo vai citar daqui a pouco na cruz — os zombadores, sem perceber, usam a mesma linguagem profética que descreve o próprio sofrimento que estão presenciando.
  44. Mateus 27:44Mesmo os dois criminosos crucificados ao lado de Jesus se juntam à zombaria geral, segundo Mateus — o relato de Lucas conta que um deles muda de atitude mais tarde, mas Mateus foca no desprezo unânime nesse momento.
  45. Mateus 27:45Trevas ao meio-dia, durando três horas, é descrita sem explicação científica no texto — muitos leitores da época veriam nisso um sinal sobrenatural associado ao julgamento divino, ecoando imagens proféticas de escuridão em dias de julgamento.
  46. Mateus 27:46Jesus está citando, em aramaico, a primeira linha do Salmo 22 — um salmo que começa com esse grito de abandono, mas termina em confiança, algo que qualquer judeu ouvindo reconheceria de cor. Citar a primeira frase de um salmo conhecido muitas vezes remetia ao salmo inteiro, mas os estudiosos divergem sobre até que ponto isso muda o sentido do grito de Jesus na cruz.
  47. Mateus 27:47A confusão de alguns espectadores, ouvindo 'Eli' e pensando em 'Elias', mostra como a citação em aramaico do Salmo 22 podia soar foneticamente parecida com o nome do profeta para quem não prestasse atenção total.
  48. Mateus 27:48Oferecer vinagre numa esponja, erguida numa cana até a boca de Jesus, pode ter sido tanto um gesto de zombaria continuada quanto uma tentativa de alívio momentâneo — o texto não esclarece a intenção exata.
  49. Mateus 27:49A expectativa irônica de que Elias viesse resgatar Jesus reflete uma crença popular sobre o profeta intervir em momentos de crise — uma esperança que, segundo o relato, não se cumpre daquele jeito.
  50. Mateus 27:50'Rendeu o espírito' descreve a morte de Jesus como um ato final, não apenas um colapso passivo — a expressão sugere uma entrega deliberada, coerente com afirmações em outras partes dos evangelhos sobre ele dar a própria vida por vontade própria.
  51. Mateus 27:51Esse véu enorme e pesado separava o espaço mais interno do templo, onde só o sumo sacerdote entrava, e só uma vez por ano — rasgá-lo de propósito seria fisicamente difícil até para um grupo de homens fortes. O detalhe de que rasgou de cima para baixo, e não o contrário, é o que os leitores da época notariam: um rasgo assim não parecia obra humana.
  52. Mateus 27:52A abertura dos sepulcros e a ressurreição de 'muitos corpos de santos' é um detalhe registrado só por Mateus entre os quatro evangelhos, sem mais informações sobre quem eram essas pessoas ou o que aconteceu com elas depois.
  53. Mateus 27:53Esses ressuscitados só entram na cidade depois da própria ressurreição de Jesus, não imediatamente após a morte dele — um detalhe que liga esse sinal extraordinário diretamente ao evento central da Páscoa cristã, não à crucificação isolada.
  54. Mateus 27:54A declaração do centurião romano, um soldado pagão e não judeu, reconhecendo Jesus como 'Filho de Deus' fecha a cena da crucificação com uma confissão vinda de uma fonte totalmente inesperada.
  55. Mateus 27:55As mulheres que seguiam Jesus desde a Galileia, observando de longe, contrastam com a fuga geral dos discípulos homens — elas permanecem como testemunhas presentes até o fim, e vão continuar sendo testemunhas centrais no capítulo seguinte.
  56. Mateus 27:56Maria Madalena aparece pela primeira vez explicitamente nomeada no evangelho de Mateus nessa lista — ela vai ser a primeira testemunha do túmulo vazio no capítulo seguinte.
  57. Mateus 27:57José de Arimateia, descrito como rico e discípulo de Jesus, provavelmente era membro do próprio conselho religioso que tinha condenado Jesus, segundo outros evangelhos — um detalhe que mostra apoio inesperado vindo de dentro da própria elite religiosa.
  58. Mateus 27:58Pedir o corpo diretamente a Pilatos exigia coragem, já que associar-se publicamente com um condenado por sedição podia trazer risco político para José — mas o pedido é atendido sem grandes obstáculos.
  59. Mateus 27:59Envolver o corpo em um lençol fino e limpo era parte do costume judaico de preparação para o sepultamento, normalmente seguido de mais tempo e cuidado do que foi possível nesse caso, por causa da proximidade do sábado.
  60. Mateus 27:60Um sepulcro novo, ainda não usado, e talhado na rocha, era um tipo de túmulo reservado a famílias com recursos — José oferece seu próprio espaço de sepultamento planejado para Jesus.
  61. Mateus 27:61As duas Marias permanecem vigiando o túmulo mesmo depois do sepultamento, marcando exatamente o local — um detalhe que se conecta diretamente ao retorno delas ao mesmo lugar no início do capítulo 28.
  62. Mateus 27:62'Depois da preparação' seria já o sábado — os líderes religiosos indo até Pilatos nesse dia mostra a urgência deles em garantir a segurança do túmulo, apesar de ser um dia normalmente reservado para descanso.
  63. Mateus 27:63Os líderes religiosos demonstram conhecer bem as próprias palavras de Jesus sobre ressuscitar em três dias, mesmo enquanto o chamam de 'enganador' — uma preocupação que sugere levarem a sério, ao menos como risco prático, a possibilidade de um mal-entendido público.
  64. Mateus 27:64O medo de um 'último erro pior que o primeiro' revela que os líderes religiosos temiam mais a alegação de ressurreição, mesmo falsa, do que a crucificação em si — um detalhe que prepara diretamente a acusação de fraude que vai circular no capítulo seguinte.
  65. Mateus 27:65'Selar a pedra' significava esticar uma corda sobre a rocha que fechava o túmulo e prendê-la nas duas pontas com cera ou argila carimbada — quem rompesse o selo estaria desafiando abertamente a autoridade romana. A guarda era um grupo de soldados postos ali justamente para impedir a acusação que os sacerdotes temiam: que os discípulos viessem roubar o corpo à noite.
  66. Mateus 27:66Selar a pedra e postar uma guarda formal representava toda a autoridade romana empenhada em garantir que o túmulo permanecesse intacto — tornando ainda mais notável, no capítulo seguinte, que essas precauções não impediram o que aconteceu.

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