Cânticos 5

ARC · Capítulo 5/8

1Já vim para o meu jardim, irmã minha, ó esposa: colhi a minha myrrha com a minha especiaria, comi o meu favo com o meu mel, bebi o meu vinho com o meu leite: comei, amigos, bebei, ó amados, e embriagae-vos.

2Eu estava dormindo, mas o meu coração vigiava: eis a voz do meu amado que estava batendo: abre-me, irmã minha, amiga minha, pomba minha, perfeita minha, porque a minha cabeça está cheia d'orvalho, as minhas guedelhas das gottas da noite;

3Já despi os meus vestidos; como os tornarei a vestir? já lavei os meus pés; como os tornarei a sujar?

4O meu amado metteu a sua mão pelo buraco da porta, e as minhas entranhas estremeceram por amor d'elle.

5Eu me levantei para abrir ao meu amado, e as minhas mãos distillavam myrrha, e os meus dedos gottejavam myrrha sobre as aldrabas da fechadura.

6Eu abri ao meu amado, mas já o meu amado se tinha retirado, e tinha ido: a minha alma se derreteu quando elle fallou; busquei-o e não o achei, chamei-o, e não me respondeu.

7Acharam-me os guardas que rondavam pela cidade: espancaram-me, feriram-me, tiraram-me o meu véu os guardas dos muros.

8Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalem, que, se achardes o meu amado, lhe digaes que estou enferma de amor.

9Que é o teu amado mais do que outro amado, ó tu, a mais formosa entre as mulheres? que é o teu amado mais do que outro amado, que tanto nos conjuraste?

10O meu amado é candido e rubicundo; elle traz a bandeira entre dez mil.

11A sua cabeça é como o oiro mais apurado, as suas guedelhas crespas, pretas como o corvo.

12Os seus olhos são como os das pombas junto ás correntes das aguas, lavados em leite, postos em engaste.

13As suas faces são como um canteiro de especiaria, como caixas aromaticas; os seus labios são como lyrios que gottejam myrrha distillante.

14As suas mãos como anneis d'oiro que teem engastadas as turquezas: o seu ventre como alvo marfim, coberto de saphiras.

15As suas pernas como columnas de marmore, fundadas sobre bases de oiro puro; o seu parecer como o Libano, excellente como os cedros.

16O seu fallar é muitissimo suave, e todo elle totalmente desejavel. Tal é o meu amado, e tal o meu amigo, ó filhas de Jerusalem.

📖 Estudo do capítulo

Resumo

O amado chega à porta da amada, mas ela demora a abrir e, quando o faz, ele já se foi. Ela sai à procura dele pela cidade e é maltratada pelos guardas. Em seguida, descreve com detalhes a beleza física dele para as filhas de Jerusalém.

Explicação

Esta passagem retrata um momento de perda temporária e busca, um padrão emocional comum em relacionamentos: mal-entendidos, hesitação e o medo de que o amor tenha se afastado. A resposta hostil dos guardas mostra os riscos reais que uma mulher enfrentava ao sair sozinha à noite na sociedade antiga. Notavelmente, aqui é a mulher quem descreve elogiosamente o corpo do homem, algo raro na literatura antiga, mostrando que o Cântico trata o desejo feminino com a mesma dignidade do masculino. Aplicação de hoje: a comunicação franca sobre sentimentos evita que pequenos desencontros se tornem grandes distâncias no relacionamento.

Curiosidades

  • A descrição do amado como "cabeça de ouro fino" e "pernas como colunas de mármore" segue o mesmo padrão poético usado para descrever ídolos e estátuas reais na literatura do antigo Oriente Médio, indicando magnificência.
  • Este é um dos poucos textos bíblicos em que uma mulher elogia abertamente a beleza física de um homem, ponto notado por comentaristas como sinal da reciprocidade do amor no livro.

Explicação versículo a versículo

  1. Cânticos 5:1O convite final para 'comer e beber abundantemente' parece incluir os amigos do casal celebrando junto, como se essa cena de intimidade terminasse virando uma festa compartilhada, não só um momento a sós.
  2. Cânticos 5:2A cena em que o amado bate à porta de noite, ela hesita em abrir e, quando finalmente abre, ele já foi embora, repete o tema da busca e do desencontro que já tinha aparecido antes no livro, mostrando o lado mais dolorido do amor.
  3. Cânticos 5:3As desculpas dela para não se levantar logo, já estar despida e com os pés lavados, soam como hesitação preguiçosa que ela mesma vai lamentar amargamente assim que ele for embora.
  4. Cânticos 5:4A porta com um buraco ou fresta para a mão passar era um detalhe arquitetônico comum em casas antigas — o gesto dele de tentar abri-la por ali é um pedido de entrada silencioso e íntimo.
  5. Cânticos 5:5O perfume de mirra escorrendo das mãos dela até as maçanetas sugere que ela havia se perfumado esperando por ele, um detalhe sensorial que transforma até o gesto de abrir a porta em algo carregado de desejo.
  6. Cânticos 5:6A demora dela em abrir a porta tem consequência real: quando finalmente abre, ele já foi embora, transformando a cena de expectativa em uma de arrependimento e busca desesperada logo em seguida.
  7. Cânticos 5:7Diferente do encontro gentil com os guardas no capítulo 3, aqui eles a maltratam e tomam seu véu — escalada de violência que pode refletir tanto um perigo real quanto a intensidade emocional do próprio desespero dela.
  8. Cânticos 5:8Pedir para as outras moças passarem um recado, caso encontrem o amado antes dela, mostra o quanto sua busca já parece perdida — ela recorre a intermediárias por não conseguir mais encontrá-lo sozinha.
  9. Cânticos 5:9A pergunta curiosa das outras moças, o que faz esse amor ser tão especial, funciona como gancho narrativo que introduz a longa descrição física dele nos versos seguintes.
  10. Cânticos 5:10Depois de ele ter descrito o corpo dela em capítulos anteriores, aqui é a vez de ela descrever o corpo dele, com imagens igualmente elaboradas como cabeça de ouro fino e pernas como colunas de mármore, mostrando que a admiração física era mútua entre os dois.
  11. Cânticos 5:11Comparar a cabeça a ouro puro e o cabelo a um corvo preto reúne duas imagens de valor e beleza bem diferentes, luxo material e cor intensa da natureza, numa única descrição.
  12. Cânticos 5:12A mesma imagem de olhos-pombas usada para descrever a amada no capítulo 1 aparece aqui invertida, aplicada a ele — o poema reaproveita elogios entre os dois personagens em ambas as direções.
  13. Cânticos 5:13Descrever os lábios como lírios que gotejam mirra combina uma imagem visual delicada com uma sensação de perfume quase palpável saindo da fala ou do beijo dele.
  14. Cânticos 5:14Comparar partes do corpo a metais e pedras preciosas, ouro, marfim, safiras, monta um retrato quase escultural dele, tanto obra de arte quanto pessoa real.
  15. Cânticos 5:15Terminar a descrição comparando-o a colunas de mármore e aos cedros do Líbano reforça uma imagem de estabilidade e grandiosidade, digna de um templo ou palácio, aplicada ao corpo de uma pessoa amada.
  16. Cânticos 5:16Chamá-lo tanto de 'amado' quanto de 'amigo' no mesmo verso mostra que o poema não separa paixão romântica de companheirismo — os dois termos aparecem juntos como parte da mesma relação.

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