A Casa Junto ao Mar · Capítulo 1

O Fim de Tudo

Havia exatamente quarenta e três dias que Jorge tinha morrido quando Cecília descobriu que ele levara consigo, além de tudo o mais, o chão sob os seus pés.

A sala do contador cheirava a café requentado e papel velho. Cecília sentou-se na cadeira de couro gasto, do outro lado da mesa, e cruzou as mãos sobre a bolsa, como uma aluna esperando a nota de uma prova que sabia ter ido mal. Dr. Aurélio cuidava das contas de Jorge havia mais de vinte anos. Era um homem gentil, de óculos sempre tortos, e naquela manhã ele não conseguia olhá-la nos olhos.

— Dona Cecília — começou ele, mexendo numa caneta que não escrevia nada —, eu queria muito que essa conversa fosse outra.

Ela já tinha aprendido, nas últimas seis semanas, que as frases começadas assim nunca terminavam bem. Era como se o mundo tivesse desenvolvido uma gramática nova depois da morte de Jorge, uma língua feita só de eufemismos e silêncios. "A senhora precisa ser forte." "Ele não sofreu." "Foi a vontade de Deus." Essa última, principalmente, ela tinha vontade de devolver na cara de quem dizia.

— Pode falar, doutor — respondeu, com a voz mais firme do que se sentia. — Depois do que eu já passei, acho que aguento.

Dr. Aurélio respirou fundo. E falou.

Falou em palavras que Cecília conhecia separadamente, mas que, juntas, não faziam sentido. Aval. Garantia. Execução. Disse que Jorge, dois anos antes, havia assinado como avalista de um empréstimo do sócio, o Ronaldo — aquele mesmo Ronaldo que aparecera no velório de óculos escuros e sumira antes do café. Disse que o negócio dos dois afundara em silêncio, como afundam as coisas que os homens têm vergonha de contar em casa. Disse que o banco agora cobrava a dívida inteira do espólio. E que o apartamento da Vila Mariana, onde Cecília e Jorge tinham vivido por vinte e seis anos, estava dado em garantia.

— Quanto tempo eu tenho? — foi tudo o que ela conseguiu perguntar.

— Com sorte, uns três meses. Talvez quatro, se a gente recorrer.

Três meses. Vinte e seis anos de vida cabiam, agora, em três meses.

Cecília não chorou. Tinha gastado as lágrimas todas no primeiro mês, e descobrira, com uma espécie de horror, que a fonte secava. O que restava era aquilo: um entorpecimento, uma calma esquisita, como a do mar pouco antes de uma ressaca. Ela agradeceu ao doutor — porque a mãe a criara para agradecer, mesmo às más notícias —, apertou a mão dele, que era macia e fria, e saiu para a rua.

São Paulo seguia indiferente. Os carros buzinavam, um camelô anunciava carregadores de celular, o sol de fim de outono caía morno sobre as marquises. Cecília ficou parada na calçada por um tempo que não soube medir, segurando a bolsa contra o peito como quem segura uma criança, e pensou, sem querer pensar: Jorge, como você pôde?

Não era raiva. Ou era, mas vinha embrulhada em outra coisa, mais funda e mais difícil de nomear. Era a sensação de ter dividido a cama, a mesa e a vida com um homem por mais da metade dos seus anos e descobrir, tarde demais, que havia um quarto inteiro dentro dele cuja porta ela nunca tinha visto.

Pegou o ônibus de volta. Sempre pegava ônibus; Jorge é que dirigia. Encostou a testa no vidro e deixou a cidade passar.

O apartamento a recebeu com o silêncio que tinha virado seu único companheiro. Cecília largou a bolsa no sofá e ficou de pé na sala, olhando aquilo tudo com olhos novos — olhos de quem já está se despedindo. A estante que Jorge montara num domingo, xingando as instruções em sueco. A mancha no tapete, do vinho derramado na noite em que tinham comemorado os vinte e cinco anos de casados de um jeito modesto, só os dois, porque filhos Deus não lhes dera, embora ela tivesse pedido por tantos anos que cansara de pedir.

Foi até a cozinha, pôs a chaleira no fogo por força do hábito, e só quando a água começou a chiar é que se deu conta de que não queria chá nenhum. Desligou. Apoiou as duas mãos na pia fria e olhou pela janela o muro do prédio vizinho.

Houve um tempo em que Cecília teria feito o que sempre fizera diante das tempestades: teria rezado. Em criança, na casa da avó, aprendera que a oração era como abrir uma janela num quarto abafado — entrava ar, entrava luz. Durante anos foi assim. Rezava ao acordar, rezava no fogão, rezava a Deus pelos alunos da escola onde lecionou a vida inteira, rezava por Jorge quando ele chegava tarde com aquele cansaço de homem que carrega o que não conta.

Mas naquele dia, de pé na cozinha, percebeu que não rezava havia quarenta e três dias. Desde que o telefone tocara às cinco e meia da manhã e uma voz de enfermeira, treinada para ser suave, lhe dissera que tentaram de tudo.

Não era que tivesse decidido parar. Era que, em algum ponto daquela madrugada, a janela tinha se fechado. E quando ela tentava abri-la de novo — agora, por exemplo —, encontrava só a parede. Como se do outro lado não houvesse mais ninguém escutando. Ou pior: como se houvesse, e tivesse escolhido o silêncio.

— Por quê? — disse, em voz alta, para a cozinha vazia.

A pergunta ficou pendurada no ar, sem eco. Cecília quase riu de si mesma. Cinquenta e quatro anos, professora aposentada, viúva, falida, conversando sozinha com um Deus de quem andava com raiva. Se a mãe a visse, diria que ela estava ficando igual à avó Brígida — e essa, sim, era uma comparação que ainda doía depois de tanto tempo.

Foi pensar na avó que a fez lembrar do envelope.

Tinha chegado três dias antes, no meio de um maço de contas e pêsames atrasados, e Cecília o pusera de lado sem abrir, do jeito que se faz com o que a gente pressente que vai mexer em coisa antiga. Era um envelope pardo, formal, com o timbre de um cartório de uma cidade que ela não ouvia mencionar havia trinta anos. O nome no remetente era de um lugar pequeno, à beira-mar, com cheiro de sal e de peixe e de uma infância que ela tinha trancado a sete chaves: Vila de São Pedro.

Cecília secou as mãos no pano de prato, foi até a sala e pegou o envelope de cima da pilha. Segurou-o por um momento, pesando-o, como se pudesse adivinhar o conteúdo pelo peso. O coração — aquele órgão teimoso que ela achava já anestesiado — bateu um pouco mais rápido.

Lá fora, a tarde começava a escurecer sobre os telhados de São Paulo. Dentro do apartamento que dali a três meses não seria mais dela, sob a luz amarela do abajur que Jorge gostava, Cecília Andrade rasgou o envelope.

E foi assim que, no fim de tudo, sem que ela ainda soubesse, alguma coisa começou.

Capítulos

12🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒🔒