Cartas para o Céu · Capítulo 1

A Subida do Morro

Foi numa terça-feira de fim de inverno que Marta subiu ao morro pela primeira vez desde o enterro do filho.

Não tinha planejado subir. Tinha planejado, como em todas as terças desde agosto, sair da escola técnica às quatro e dez, passar na padaria do seu Joel, comprar dois pãezinhos que não ia comer, e voltar para o silêncio da casa. Era essa a rotina que ela montara para si mesma como quem monta uma muleta — uma sequência de pequenos gestos para atravessar o dia sem cair. Não comia os pães; deixava-os secando em cima da pia, e no fim da semana dava para os passarinhos no quintal. Era um luxo absurdo, mas Marta tinha aprendido, nos últimos oito meses, que o luto vivia de pequenos absurdos: gestos que não faziam o menor sentido para mais ninguém e que, para ela, eram a única coisa que ainda fazia.

Naquela terça, porém, ao passar em frente à padaria, ela não entrou. Os pés a levaram em frente, em direção à rua de pedras que terminava aos fundos do cemitério, e dali em direção ao caminho que ninguém mais usava — o caminho que subia o morro de Santa Clara até a capela velha lá em cima.

Marta não percebeu de imediato para onde estava indo. Caminhou como caminham as pessoas que ainda não decidiram a frase que vão dizer mas já abriram a boca para começá-la. Os pés sabiam antes da cabeça. Foi só quando viu, à sua frente, a primeira curva da subida e o capim alto cobrindo o trilho de terra batida que ela parou, segurou a alça da bolsa contra o peito e pensou, com uma calma esquisita: então é isto.

A subida era íngreme, e ela estava de sapato baixo, mas firme, do tipo que professora de costura usa para passar o dia em pé na frente da máquina. As pernas, que tinham esquecido o exercício, ardiam ao terceiro minuto. Marta agradeceu o ardor. Havia alguma coisa em sentir o corpo — o cansaço, o suor frio entre as omoplatas, o coração batendo nos ouvidos — que tirava por um instante o peso do outro lugar, daquele ponto exato debaixo da costela esquerda onde, desde 4 de outubro, ela carregava um vazio do tamanho de um menino de seis anos.

A capela apareceu primeiro como uma mancha branca entre as árvores, e depois inteira, quando o caminho fez a última curva: pequena, caiada de cal velha, com um único portal de madeira escura, e ao redor um descampado de capim crescido onde, no tempo da bisavó de Marta, faziam quermesses. Hoje não fazia mais. Hoje não fazia nada. A diocese havia abandonado aquela capela há tantos anos que as próprias pessoas da cidade tinham parado de falar dela, do jeito que se para de falar de um parente longe que não morreu mas também não escreve.

Marta avançou os últimos passos até a porta. A madeira estava trancada por dentro com cadeado enferrujado — coisa simbólica, mais para anunciar abandono do que para impedir entrada. Ela contornou a parede, andando devagar pelos cantos de gramado curto, e foi parar nos fundos.

Foi ali que ela viu as frestas.

Eram três, alinhadas na parede dos fundos, na altura do peito de uma pessoa em pé. A argamassa antiga tinha cedido com os anos e o tijolo aparecia pelos buracos, escuro e poroso, como uma boca aberta esperando alguma coisa. Marta lembrou-se, de repente, de uma história que a mãe lhe contara em criança: que, no tempo dos antigos, deixavam-se pedidos a Deus nas frestas das igrejas, escritos em papelzinho, porque o vento e a chuva levavam a oração ao céu mais depressa do que a boca da gente. Não acreditara na época. Não acreditava agora. Mas alguma coisa dentro dela acreditou pela primeira vez por ela.

Sentou-se na pedra que servia de degrau dos fundos. Abriu a bolsa, tirou o caderninho de capa azul onde anotava as medidas das alunas e arrancou a primeira folha de trás. Tirou a caneta. Ficou olhando para o papel um tempo.

Havia oito meses, exatamente naquela mesma semana, Marta tinha parado de rezar dentro de casa.

Não tinha decidido parar. Foi como deixar de fazer alguma coisa que sempre se fez sem perceber — como, na primeira tarde fria do ano, alguém se dar conta de que esqueceu o agasalho no armário do quarto e que está atravessando o dia sentindo frio. Era assim a oração depois de Davi: cabia em todas as horas e em todos os cômodos, mas Marta não conseguia mais alcançá-la. Tinha ainda os gestos: dobrar os joelhos na beira da cama, juntar as mãos, fechar os olhos. Mas onde antes havia uma voz dentro dela conversando com Alguém, havia agora um eco oco — como se ela falasse para um quarto vazio cuja porta tinha sido sutilmente trocada de lugar enquanto ela dormia.

Tinha aprendido a viver sem rezar. Era pior do que viver sem comer.

Talvez por isso — pensou Marta, com a folha em branco no colo —, talvez por isso eu tenha subido aqui. Porque aqui ainda não tentei. Porque aqui, do lado de fora, talvez doa menos.

Aproximou a caneta do papel. Demorou. A mão tremia um pouco. Mas, quando começou, foi quase sem pensar — como se algo dentro dela tivesse esperado durante 244 dias por aquele exato pedaço de papel apoiado num livro de bolso, naquela exata pedra dos fundos de uma capela esquecida.

Escreveu:

Deus,

Sou Marta, e o senhor já sabe quem eu sou, então vou direto.

Faz oito meses que o senhor levou meu filho. Davi tinha seis anos. Tinha acabado de ganhar uma bicicleta nova, vermelha, e estava aprendendo a soltar as mãos do guidão. O senhor sabe a história. Eu não vou contar de novo — não posso.

Eu rezei a vida inteira. Quando meu marido morreu, há cinco anos, eu rezei. Quando meu pai morreu, antes disso, eu rezei. Quando descobri que estava grávida do Davi aos trinta e dois, e os médicos disseram que era arriscado, eu rezei. O senhor sempre esteve aí, do outro lado, mesmo quando a resposta não era a que eu queria. Eu sempre soube que tinha alguém ouvindo.

Mas no dia 4 de outubro o senhor não estava em casa. Eu fui rezar e não tinha ninguém. E em todos os dias depois disso eu tentei e a sala estava vazia.

Eu não vim aqui hoje pra perdoar o senhor. Não vim pra pedir nada. Eu vim porque dentro de casa eu não consigo mais e eu preciso falar com alguém. Se o senhor for o senhor de verdade, vai entender por que eu não consegui falar isso ajoelhada do lado da minha cama, com a foto do Davi em cima da cômoda.

Eu vou deixar este bilhete na fresta da parede de trás. Se for o senhor mesmo, faz alguma coisa. Não precisa ser milagre. Não precisa ressuscitar ninguém — eu desisti de pedir essa. Só me responde de algum jeito que eu saiba que era pra mim.

Eu não sei mais rezar. Mas escrever eu ainda sei.

Marta.

Releu. A mão, agora, tinha parado de tremer.

Marta dobrou o papel ao meio, depois ao meio de novo. Pôs-se de pé, sentindo as costas estalarem. Foi até a primeira fresta da parede de trás — a do meio das três — e enfiou o bilhete fundo, até a folha desaparecer no escuro do tijolo. Empurrou com o dedo indicador. Limpou a mão no casaco.

Ficou um tempo olhando para a parede como quem espera que ela responda na hora. Não respondeu. Mas Marta também não esperava de verdade. Esperar era uma coisa que ela tinha desaprendido em outubro.

Quando se virou para descer, o sol estava começando a baixar atrás dos eucaliptos, e o ar tinha esfriado mais um grau. Lá embaixo, a cidade — São Bento da Serra — apareceu inteira no vale, com seus telhados de telha vermelha e a torre da matriz pontuando o centro como uma agulha. Daqui de cima, parecia uma cidade onde nada de muito grave tinha acontecido. Marta sabia que não era verdade. Mas era bonito.

Desceu o morro mais devagar do que tinha subido, porque o joelho direito reclamava na descida. Em algum trecho do caminho, sem perceber, deu por si chorando — não em soluços, só lágrimas escorrendo silenciosas, como vem chuva no fim de uma tarde quente. Não eram lágrimas de tristeza pura. Eram lágrimas de uma coisa que ela não saberia nomear naquela noite, mas que, ao chegar em casa e tomar o banho quente, e deitar-se cedo sem rezar como já era costume, ela perceberia: pela primeira vez em oito meses, alguma coisa tinha se mexido. Um pequeno deslocamento, do tamanho de uma folha dobrada quatro vezes.

Lá no alto, atrás da parede caiada da Capela de São Lázaro, o vento de fim de tarde mexeu na fresta do meio. O bilhete não saiu. Aquietou-se mais fundo, como se a parede, depois de tantos anos de silêncio, tivesse engolido seco a primeira coisa que lhe deram.

Marta não viu. Já estava em casa. Mas a parede, do outro lado, esperaria nove dias antes que outro par de pés subisse aquele morro — e quando subisse, viria de baixo para cima como ela viera, mas dentro da capela, e seria o de um homem que não acreditava em nada, e que naquele exato lugar começaria a deixar de acreditar na sua própria descrença.

Mas isso, Marta não saberia ainda por muito tempo.

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