Jó 4
- Então Elifaz o temanita respondeu, dizendo:
- Se tentarmos falar contigo, ficarás incomodado? Mas quem poderia deter as palavras?
- Eis que tu ensinavas a muitos, e fortalecias as mãos fracas;
- Tuas palavras levantavam aos que tropeçavam, e fortificavas os joelhos que desfaleciam.
- Mas agora [isso] que aconteceu contigo, tu te cansas; e quando [isso] te tocou, te perturbas.
- Por acaso não era o teu temor [a Deus] a tua confiança, e a integridade dos teus caminhos tua esperança?
- Lembra-te agora, qual foi o inocente que pereceu? E onde os corretos foram destruídos?
- Como eu tenho visto, os que lavram injustiça e semeiam opressão colhem o mesmo.
- Com o sopro de Deus eles perecem, e pelo vento de sua ira são consumidos.
- O rugido do leão, a voz do leão feroz, e os dentes dos leões jovens são quebrantados.
- O leão velho perece por falta de presa, e os filhotes da leoa se dispersam.
- Uma palavra me foi dita em segredo, e meu ouvidos escutaram um sussurro dela.
- Em imaginações de visões noturnas, quando o sono profundo cai sobre os homens,
- Espanto e tremor vieram sobre mim, que espantou todos os meus ossos.
- Então um vento passou por diante de mim, que fez arrepiar os pelos de minha carne.
- Ele parou, mas não reconheci sua feição; uma figura estava diante de meus olhos, e ouvi uma voz quieta, [que dizia] :
- Seria o ser humano mais justo que Deus? Seria o homem mais puro que seu Criador?
- Visto que ele não confia em seus servos, e considera seus anjos como loucos,
- Quanto mais naqueles que habitam em casas de lodo, cujo fundamento está no pó, e são esmagáveis como a traça!
- Desde a manhã até a tarde são despedaçados, e perecem sempre, sem que ninguém perceba.
- Por acaso sua excelência não se perde com eles mesmos? Eles morrem sem sabedoria.
Texto: Bíblia Livre — CC BY 4.0
💡 Entenda Jó 4
Resumo
Elifaz inicia o primeiro ciclo de discursos, sugerindo delicadamente que o sofrimento de Jó deve ser resultado de algum pecado, já que os inocentes não costumam perecer. Ele relata uma visão noturna em que um espírito lhe questionou se o homem pode ser mais justo que Deus.
Explicação
Elifaz representa a teologia da retribuição comum na sabedoria tradicional do antigo Oriente Médio: a crença de que o sofrimento é sempre proporcional ao pecado, e a prosperidade, à retidão. Embora ele comece com gentileza, reconhecendo o histórico de Jó ajudando outros, sua lógica implica que Jó deve ter pecado secretamente para merecer tamanha calamidade. A menção de uma visão espiritual noturna como fonte de autoridade era uma forma reconhecida de revelação na Antiguidade, embora o livro de Jó, como um todo, questione se essa experiência de Elifaz realmente capturou a verdade completa sobre Deus. Aplicação de hoje: nem todo sofrimento é consequência direta de pecado pessoal, e supor isso sobre alguém que sofre pode causar mais dor do que consolo.
Curiosidades
- Elifaz é identificado como "o temanita", de Temã, uma região de Edom famosa na Antiguidade por sua tradição de sabedoria, mencionada também em Jeremias 49:7 e Obadias 1:8-9.
- Este capítulo inicia o padrão estrutural do livro: três ciclos de discursos entre Jó e seus três amigos (Elifaz, Bildade e Sofar), nos quais cada amigo argumenta essencialmente a mesma tese da retribuição, e Jó responde defendendo sua inocência a cada rodada.